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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Na vila ouvia-se o toque a rebate. Dizia-se que era incêndio. Alguns vadios atravessaram a ponte muito açodados em direcção às freguesias de onde soavam as primeiras badaladas. O regedor de Vilalva, o pai do José Dias, descia esbaforido do monte do Barreiro a dar parte à autoridade. Assim que se espalhou a nova em Santo Tirso, já se ouvia alarido de vozes. A garotagem dava vivas, e guinchava uns apupos prolongados que punham ecos nas margens tortuosas do rio Ave. Os liberais de Santo Tirso rodearam o administrador, armados, com os seus criados. Os negociantes, com medo de saque, também saíram de clavinas. As famílias nas janelas faziam clamores, numa grande desolação. Naquela vila lembrava ainda a mortandade do tempo do cerco do Porto, e havia velhos que presenciaram outra semelhante no tempo dos franceses. O regedor de Vilalva dissera que o comandante da guerrilha era o morgado de Barrimau. Esta notícia fez aumentar o pavor, porque, se o morgado, sério, prudente e bravo, aceitara o comando dos populares é porque a coisa era séria. Os homens de negócio depuseram as armas, enfardelaram os valores e fugiram, caminho do Porto. Os proprietários, os empregados públicos, os oficiais de justiça, alguns que haviam militado e emigrado, desceram à ponte armados em número de oitenta. Outros seguiram vereda diferente para passar o rio. A guerrilha, cuja vozeada se aproximava, no trajecto de uma légua, pegou a sua febre a mais de trezentos homens. Era um domingo de festa solene, consagrado à descida do Filho de Deus, para aplacar os bárbaros ódios do género humano: – uma grande alegria que passaria despercebida, se o vinho não preparasse as almas a compreendê-la e senti-la. Depois, muito comunicativa, como se vê. Gaspar das Lamelas emborracha-se ao jantar e faz brindes ao Menino Jesus e ao Sr. D. Miguel I. Pica-lhe na caneca, pungem-no saudades do rei, e sai para o terreiro a dar-lhe vivas. Outros vinhos em ebulição respondem-lhe num grito de sinceridade compacta. Trava da espada, que se tingira no sangue de três batalhas à volta do Porto; entra com ele a convicção em delírio acrisolada pela alucinação da embriaguez. E o anojo temerário dos grandes guerreiros o que é senão uma embriaguez de glória, quando não é uma embriaguez de genebra? Nas guerras civis portuguesas houve ai um bravo soldado de fortuna que, no vigor dos anos, ganhara as charlateiras de general e uma coroa de conde. Os seus camaradas, mais retardados na carreira por causa da abstinência, diziam que ele nunca saíra vitorioso de campanha onde não entrasse bêbedo. Este general, ao declinar da vida, casado e abstémio, não deu uma página gloriosa à sua história, presidiu sem iniciativa militar nem política à Junta Suprema do Podo, e fechou o ciclo das suas façanhas a parlamentar em Vieira com o padre Casimiro, o General Defensor das cinco chagas.

Também no cérebro vinolento do alferes das Lamelas rutilavam os relâmpagos da glória quando, a brandir o gládio ferruginoso, descia, na vanguarda da guerrilha, o outeiro sobrejacente à Ponte de Santo Tirso. À entrada da ponte de pau havia taverna, com as prateleiras alinhadas de garrafas da Companhia, com rótulos.

A multidão parou, avistando gente armada que descia a calçada de além, ao nível da quinta do Mosteiro de S. Bento. O taverneiro, muito caloteado dessa vez, diz ao comandante, ao Gaspar, que não caísse em se meter à ponte.

– Vocês vão cair aí nessa ponte como tordos, e os que não caírem têm de largar os socos a fugir – avisava, porque sabia que os de lá eram tesos, e vinham todos armados.

O cabecilha tinha o seu vinho quase digerido; a bravura começava a ceder às reflexões sensatas do taverneiro; mas o seu estado-maior, uns facínoras da quadrilha que três anos antes infestara as encruzilhadas da Terra Negra e Travagem, não transigiam, e forçavam-no a beber copos de aguardente. – Que o primeiro que mostrasse os calcanhares ia malhar da ponte abaixo! – protestavam os velhos salteadores do Minho, batendo com as coronhas no balcão.

Entretanto, o administrador do concelho com dois empregados inermes atravessava a ponte. A guerrilha, estupefacta da audácia, esperava-o numa atitude pacífica, estúpida, um retraimento de covardia, olhando-se uns para os outros e todos para o alferes. Ele, empurrado pelos valentes, colocou-se à frente, na boca da ponte, com a espada nua. O administrador chegou muito de passo e perguntou se estava ali o Sr. Morgado de Barrimau, que desejava falar-lhe.

Que não estava. – Eu sou o chefe – disse o Gaspar.

– Logo me pareceu que um homem sério, como o morgado, não estaria à frente deste bom povo enganado – ponderou a autoridade. – E vossemecê quem é? – perguntou ao chefe.

Que era o alferes das Lamelas, bem conhecido em toda a parte; que perguntasse aos malhados de Santo Tirso, a esse ladrões que o perseguiram e lhe roubaram os seus bens.

(continua...)

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