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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

"Os Brilhantes do Brasileiro" é uma narrativa que retrata os costumes e as relações sociais da sociedade portuguesa, explorando temas como ambição, status, riqueza e busca por reconhecimento. Por meio de personagens marcados por interesses e conflitos familiares, a obra apresenta uma crítica bem-humorada às aparências e aos valores sociais, oferecendo ao leitor um olhar atento e irônico sobre o comportamento humano.

I

AFLIÇÕES SUDORÍFERAS

Em um frigidíssimo dia de janeiro de 1847, por volta das nove horas da manhã, o Sr. Hermenegildo Fialho Barrosas, brasileiro grado e dos mais gordos da cidade eterna, estava a suar, na rua das Flores, encostado ao balcão da ourivesaria dos Srs. Mourões. As camarinhas aljofravam a brunida testa de Fialho Barrosas, como se a porosa cabeça deste sujeito filtrasse hidraulicamente o estanque de soro recluso no bojo não vulgar do mesmo.

Era o suor respeitável da mortificação; o esponjar das glândulas pela testa, quando as lágrimas golfam dos seus poços, e não bastam já olhos a estancá-las. Era, enfim, a dor que flameja infernos em janeiro, e tira dum homem adiposo e glacial lavaredas, como o Etna as repuxa por entre as neves do seu espinhaço.

Sondemos o que se passa dentro daquele corpo, e desinchemos as bochechas do estilo.

Hermenegildo Fialho tinha recebido, às oito da manhã, no seu escritório de consignações e descontos na rua das Congostas, um bilhete da ourivesaria Mourão, convidando-o a entrar naquele estabelecimento, quando pudesse, para negócio urgente.

O substantivo “negócio” abalou-o. O adjetivo “urgente” sacudiu-o.

Pôs o chapéu, revestiu de borracha os pés impermeáveis, afligindo-os; enroscou a cara no “cachenez”, sobraçou o guarda-chuva, e foi impando, costa acima, pelo largo de S. Domingos, resmoneando no íntimo de si: “Negócio urgente!... que diabo de urgente negócio será este com o ourives!?...”

― Então que temos? – perguntou o esbofado Barrosas, e sentou-se na gemente cadeira.

E os Srs. Mourões disseram pouco mais ou menos o seguinte: Que, seis anos antes, ele, brasileiro, lhes havia comprado um adereço de brilhantes, composto de gargantilha, brincos, broche e bracelete, por 6.500$000 réis, com o fim de presentear sua noiva, segundo ele comprador declarara. Que, passados sete meses, pouco mais ou menos, uma mulher desconhecida entrara na loja, e lhes vendera um brilhante desengastado por 250$000 réis. Seis meses depois haviam comprado à mesma mulher outro de igual quilate e valor. Corrido o mesmo prazo, outro lhes fora oferecido e vendido. Que, no fim dum ano, um ourives vizinho lhes tinha negociado um brilhante de cem libras, o qual lhes despertara reminiscência de ter sido vendido em sua casa; mas, por mais que avivaram lembranças, não recordaram a quem. E, volvido pouco mais dum ano, diverso ourives lhes vendera outro brilhante do mesmo preço, dizendo que o comprara a um joalheiro espanhol. Não obstante, insistiam em afirmar que as duas últimas pedras tinham já sido deles; sem todavia desconfiarem de roubo. Acontecendo, porém, que oito dias antes, uma mulher com jeito de criada, a mesma que primeiro lá tinha ido, lhes levasse uma pulseira, para se engastarem pedras falsas no encaixe de outras já desencravadas, a desconfiança inclinou-se logo para roubo. Ficou a pulseira, e depressa reconheceram que era de sua casa, e daí a suspeita de que os brilhantes comprados lhe houvessem pertencido. Os dois maiores ainda existiam soltos. Ajustaram-os nos engastes: frisavam perfeitamente. Recordaram com mais seguras probabilidades, e convieram na presunção que a pulseira era parte das jóias do noivado comprados pelo Sr. Barrosas, seis anos antes. E, na incerteza, deliberaram prudentemente reter a mulher, quando ela viesse buscar o bracelete, certos de que, a ser a jóia do Sr. Fialho, por força se praticara roubo, sendo improvável que um sujeito notoriamente rico mandasse vender brilhantes e repor minas novas na pulseira de sua esposa...

― Deixe-me cá ver! – atalhou o brasileiro. – Mostre-me isso!

Mostram-lha.

Era a pulseira de Ângela.

Aqui principiou a borbulhar um sumo gomoso e crasso da testa do homem.

― É de minha mulher, acho eu! – tartamudeou ainda indeciso o Sr. Fialho. – Que é da criada?

― Está na polícia porque tentou fugir. Se vossa senhoria quer, vai um cabo buscá-la.

― Bom será, que eu não posso mexer-me... Parece que me arde o interior! Dão-me os senhores um copo de água, se fazem favor... Isto só no inferno! – prosseguiu o Sr. Barrosas, batendo na testa com os pulsos. – Minha mulher não vendia os brilhantes! É impossível! Vendê-los p’ra quê? P’ra quê, não me dirão os senhores?

― Pode ser que estejamos enganados – observou um dos honrados ourives; - mas o esclarecermo-nos é tão necessário para vossa senhoria como para nós. Se nos iludimos, ficamos contentíssimos e sossegados. As nossas suspeitas não ofendem ninguém senão a criada. Enfim, cumprimos um dever.

― Fazem muito bem – obtemperou o brasileiro; - mas minha esposa não vendia os brilhantes... Roubar-lhos a criada? Isso pode ser; mas... Que figura tem ela?

― Baixa, gorda, mais de meia idade, vestida limpamente.

― Os sinais são dela... Tem uma verruga no nariz, assim do feitio de ervilha?

― Não reparei...

(continua...)

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