Por Lima Barreto (1921)
Basta passar pelas esquinas das ruas transitadas para verificar como é desagradável, como perturba o trânsito, o acúmulo de jornais que os vendedores nelas fazem.
Considere-se ainda que o número de jornais tende a crescer, que todos eles querem ser postos à venda, para justificar uma regulamentação, que se faz mister a menos que não queiramos ver os passeios das nossas ruas transformados em mostruário de quotidianos.
Os homens viajados e passeados pelo mundo dizem que essa venda é feita em outras capitais em quiosques especiais – porque não pode ela ser feita aqui da mesma maneira?
Os pequenos vendedores não são o mais grave aspecto da questão; os “jornaleiros” estacionados nas esquinas, julgo eu é que constituem a face mais importante do problema.
Os nossos edis, que já protegeram a virtude com certo uniforme adequado, devem quanto antes voltar as suas vistas para essa feição da nossa vida urbana e resolvêla cabalmente.
Correio da Noite, Rio, 9-1-1915.
COM O BINÓCULO
Ontem, domingo, o calor e a mania ambulatória não me permitiram ficar em casa. Saí e vim aos lugares em que um “homem das multidões” pode andar aos domingos.
Julgava que essa história de piqueniques não fosse mais binocular; o meu engano, porém, ficou demonstrado.
No Largo da Carioca havia dois ou três bondes especiais e damas e cavalheiros, das mais chics rodas, esvoaçavam pela Galeria Cruzeiro, à espera da hora.
Elas, as damas, vinham todas vestidas com as mais custosas confecções ali do Ferreira, do Palais, ou do nobre Ramalho Ortigão, do Parc, e ensaiavam sorrisos como se fossem para Versalhes nos bons tempos da realeza francesa.
Eu pensei que uma pasmosa riqueza tinha abatido sobre o Ameno Resedá ou sobre a Corbeille des Fleurs do nosso camarada Lourenço Cunha; mas estudei melhor as fisionomias e recebi a confirmação de que se tratava de damas binoculares, que iam a uma festa hípica, ou quer que seja, no Jardim Botânico.
Não é de estranhar que as pessoas binoculares vão a festas e piqueniques, mas assim, charanga à porta, a puxar o cortejo com um dobrado saltitante, julgo eu que não é da mais refinada elegância.
O Binóculo deve olhar para esse fato; deve procurar por um pouco mais de proporção, de discreção nessas manifestações festivas da nossa grande roda aos cavalos de corridas; e ele tem tanto trabalho para o refinamento da nossa sociedade que não pode esquecer esse ponto.
Imagino que em Paris ou Londres os dez mil de cima não dão aos “rotos” esse espetáculo de tão flagrante mau gosto.
Não posso compreender como a elegante mme Bulhões Sylvá, toda lida e saída nas revistas, jornais e livros do bom-tom, que tem o Don’t de cor, como o senhor Aurelino o Código Penal, saia de manhã de casa, meta-se num bonde em companhia de pessoas mais ou menos desconhecidas e vá pelas ruas do Rio de Janeiro afora, ao som de uma charanga que repinica uma polca chorosa de muito rancho carnavalesco. Correio da Noite, Rio, 11-1-1915.
CONHECEM?
Eu não sei que mania se meteu na nossa cabeça moderna de que todas as dificuldades da sociedade se podem obviar mediante a promulgação de um regulamento executado mais ou menos pela coação autoritária de representantes do governo.
Nesse caso de criados, o fato é por demais eloquente e pernicioso.
Porque regulamentar-se o exercício da profissão de criado? Porque obrigá-los a uma inscrição dolorosa nos registros oficiais, para tornar ainda mais dolorosa a sua situação dolorosa?
Porque?
Porque pode acontecer que sejam metidos nas casas dos ricos ladrões ou ladras; porque pode acontecer que o criado, um dado dia, não queira mais fazer o serviço e se vá embora.
Não há outras justificativas senão estas, e são bem tolas.
Os criados sempre fizeram parte da família: é concepção e sentimento que passaram de Roma para a nobreza feudal e as suas relações com os patrões só podem ser reguladas entre eles.
A Revolução, aniquilando a organização da família feudal, trouxe à tona essa questão da flamulagem; mas, mesmo assim, ela não rompeu o quadro familiar de modo a impedir que os seus chefes regulem a admissão de estranhos no lar.
A obrigação do dono ou dona de casa que procura um criado, que o põe debaixo do seu teto, é saber quem ele é; o resto não passa de opressão do governo sobre os humildes, para servir à comodidade burguesa.
Querem fazer das nossas vidas, dos indivíduos, das almas, uma gaveta de fichas. Cada um tem que ter a sua e, para obtê-la, pagar emolumentos, vencer a ronha36 burocrática, lidar com funcionários arrogantes e invisíveis, como em geral, são os da polícia.
Imagino-me amanhã na mais dura miséria, sem parentes, sem amigos. Sonho fazer-me esquivo e bato à primeira porta.
Seria aceito, mas é preciso a ficha.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.