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#Comédias#Literatura Brasileira

Quase ministro

Por Machado de Assis (1862)

“Quase Ministro” é uma comédia em um ato de Machado de Assis (1839–1908), que satiriza o oportunismo político e social no Rio de Janeiro do Segundo Reinado. Escrita para um sarau realizado em 22 de novembro de 1862, na Rua da Quitanda, a peça expõe, com humor, a bajulação em torno de um suposto ministro, revelando vaidades e interesses.

PERSONAGENS

LUCIANO MARTINS, deputado

DOUTOR SILVEIRA

JOSÉ PACHECO

CARLOS BASTOS

MATEUS

LUÍS PEREIRA

MÜLLER

AGAPITO

Ação - Rio de janeiro.

NOTA PRELIMINAR

Esta comédia foi expressamente escrita para ser representada em um sarau literário e artístico, dado a 22 de novembro do ano passado (1862), em casa de alguns amigos na rua da Quitanda.

Os cavalheiros que se encarregaram dos diversos papéis foram os Senhores Morais Tavares, Manuel de Melo, Ernesto Cibrão, Bento Marques, Insley Pacheco, Artur Napoleão, Muniz Barreto e Carlos Schramm. O desempenho, como podem atestar os que lá estiveram, foi muito acima do que se podia esperar de amadores.

Pela representação da comédia se abriu o sarau, continuando com a leitura de escritos poéticos e a execução de composições musicais.

Leram composições poéticas os Senhores: conselheiro José Feliciano de Castilho, fragmentos de uma excelente tradução do Fausto; Bruno Seabra, fragmentos do seu poema Dom Fuas, do gênero humorístico, em que a sua musa se distingue sempre;

Ernesto Cibrão, uma graciosa e delicada poesia - O Campo Santo; Doutor Pedro Luís - Os voluntários da morte, ode eloqüente sobre a Polônia; Faustino de Novais, uns sentidos versos de despedida a Artur Napoleão; finalmente, o próprio autor da comédia. Executaram excelentes pedaços de música os Senhores: Artur Napoleão, A. Arnaud, Schramm e Wagner, pianistas; Muniz Barreto e Bernardelli, violinistas; Tronconi, harpista; Reichert, flautista; Bolgiani, Tootal, Wilmoth, Orlandini e Ferrand, cantores. A este grupo de artistas, é de rigor acrescentar o nome do Senhor Leopoldo Heck, cujos trabalhos de pintura são bem conhecidos, e que se encarregou de ilustrar o programa do sarau afixado na sala.

O sarau era o sexto ou sétimo dado pelos mesmos amigos, reinando neste, como em todos, a franca alegria e convivência cordial a que davam lugar o bom gosto da direção e a urbanidade dos diretores.

(Sala em casa de Martins.)

Cena I

MARTINS, SILVEIRA

SILVEIRA

(entrando)

Primo Martins, abraça este ressuscitado!

MARTINS

Como assim?

SILVEIRA

Não imaginas. Senta-te, senta-te. Como vai a prima?

MARTINS

Está boa. Mas que foi?

SILVEIRA

Foi um milagre. Conheces aquele meu alazão?

MARTINS

Ah! basta; história de cavalos... que mania!

SILVEIRA

É um vício, confesso. Para mim não há outros: nem fumo, nem mulheres, nem jogo, nem vinho; tudo isso que muitas vezes se encontra em um só homem, reuni-o eu na paixão dos cavalos; mas é que não há nada acima de um cavalo soberbo, elegante, fogoso. Olha, eu compreendo Calígula.

MARTINS

Mas, enfim...

SILVEIRA

A história? É simples. Conheces o meu Intrépido? É um lindo alazão! Pois ia eu há pouco, comodamente montado, costeando a praia de Botafogo; ia distraído, não sei em que pensava. De repente, um tílburi que vinha em frente esbarra e tomba. O Intrépido espanta-se; ergue as patas dianteiras, diante da massa que ficara defronte, donde saíam gritos e lamentos. Procurei contê-lo, mas qual! Quando dei por mim rolava muito prosaicamente na poeira. Levantei-me a custo; todo o corpo me doía; mas enfim pude tomar um carro e ir mudar de roupa. Quanto ao alazão, ninguém deu por ele; deitou a correr até agora.

MARTINS

Que maluco!

SILVEIRA

Ah! mas as comoções... E as folhas amanhã contando o fato: "DESASTRE. - Ontem, o jovem e estimado Dr. Silveira Borges, primo do talentoso deputado Luciano Alberto Martins, escapou de morrer... etc.". Só isto!

MARTINS

Acabaste a história do teu desastre?

SILVEIRA

Acabei.

MARTINS

Ouve agora o meu.

SILVEIRA

Estás ministro, aposto!

MARTINS

Quase.

SILVEIRA

Conta-me isto. Eu já tinha ouvido falar na queda do ministério.

MARTINS

Faleceu hoje de manhã.

SILVEIRA

Deus lhe fale n'alma!

MARTINS

Pois creio que vou ser convidado para uma das pastas.

SILVEIRA

Ainda não fostes?

MARTINS

Ainda não; mas a coisa já é tão sabida na cidade, ouvi isto em tantas partes, que julguei dever voltar para casa à espera do que vier.

SILVEIRA

Muito bem! Dá cá um abraço! Não é um favor que te fazem; mereces, mereces... Ó primo, eu também posso servir em alguma pasta?

MARTINS

Quando houver uma pasta dos alazões... (batem palmas) Quem será?

SILVEIRA

Será a pasta?

MARTINS

Vê quem é. (Silveira vai à porta. Entra Pacheco)

Cena II

Os mesmos e JOSÉ PACHECO

PACHECO

V. Exa. dá-me licença?

(continua...)

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