Por Aluísio Azevedo (1882)
Depois deste significativo tiroteio, Gregório fez ainda duas ou três tentativas de assédio, mas de todas elas saiu derrotado. E por conseguinte de supor que ele não contasse já absolutamente com o triunfo, quando a criada lhe foi dizer à porta do chalé que a senhora consentia em ser vista.
Entrou vacilante e um pouco entalado na dúvida de mais algum desbaratamento. Júlia recebeu-o sem perturbação. Estava prostrada sobre uma otomana de cetim e aí se deixou ficar, com os olhos meio cerrados de preguiça ou de tédio, as pernas cruzadas indolentemente, e a cabeça esquecida sobre duas almofadas.
— Vim importuná-la mais uma vez...
— Não. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que há por esse mundo do espírito?
— Trago-lhe um novo poeta, Teófilo Dias, conhece? — Dê cá.
E a viúva abriu o livro e leu algumas estrofes.
— Que tal o acha?...
Ela não respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os de novo sobre o livro e continuou a leitura.
Gregório foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das mãos. Ela consentiu ou não deu por isso, muito empenhada na leitura.
Gregório recolheu a mãozinha que tinha entre as suas e levou-a aos lábios com a sofreguidão de um faminto.
Ela continuou a ler.
Gregório aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou os lábios à cabeça da viúva e beijou-lhe a polpa macia do pescoço.
— Então? Que é isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se melindrada e deixando escapar o livro das mãos.
Gregório levantou-se também, mas prendeu a viúva nos braços.
— Não seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de súplica. Tenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa...
A viúva abaixou a cabeça e ficou a pensar.
Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado.
— Então?! disse ele afinal; em que pensa?...
— É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. E o diabo!...
— O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz.
— Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta!
— Oh! exclamou ele.
— Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!...
— Lá vem a mania de chamar-me criança!
— Mas se é!
— E quer responsabilizar-me por uma falta de que não sou culpado?!
— Culpada seria eu se não pensasse um pouco!
— Júlia!
— Não! Não!
— Meu amor!
— Então?!
— Eu te adoro!
— Tenha juízo!
— Tu me pões louco!
— Mas contenha-se, ou chamo a criada!
— Julinha!
— Solte-me o braço! Pior! Não faça cócegas!
Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar. E tudo felizmente acabou em pura galhofa.
CAPÍTULO IV
CORAÇÃO DE MULHER
Entre a cena pitoresca das cócegas e a sensaborona e triste cena do frustrado casamento de Gregório, medeia o período dos amores deste com a simpática viúva da Tijuca. Foram dois belos anos, durante os quais o amor teve tempo para percorrer toda a órbita do seu caprichoso sistema planetário, fazendo, já se sabe, as cabriolas que o endemoninhado costuma dar sempre que se apanha em revolução.
Dois anos! Oh! nesse lapso o amor tem tempo para muita coisa! Com as asas de que dispõe, pode ir ao zênite da paixão, pairar um pouco no espaço e precipitar-se afinal no pélago morno da indiferença e do tédio.
Todavia, se isto era aplicável a Gregório, não o era certamente à outra parte interessada — a viúva. Em questões de amor é com efeito muito difícil encontrar dois partidos iguais; em geral, um quer e o outro apenas consente.
E o mais curioso é que a mulher é quase sempre quem representa a parte mais ativa e mais importante no conflito.
Entre o amor da mulher e o amor do homem há uma diferença capital: o amor do homem tende a diminuir com o tempo; e o da mulher, quanto mais vive, mais avulta e mais espalha e aprofunda as suas raízes pelo coração. E que em geral o homem, à semelhança do fogoso corcel, que dispara na arena com todo o fogo da carreira, gasta logo no princípio do tiro a melhor parte da atividade de que dispõe, e começa a ruinguar de forças; ao passo que a mulher, partindo vagarosamente, vai pouco e pouco se animando na luta, e deixa-se afinal arrebatar pelo ardor e pelo entusiasmo.
O homem, à proporção que desvenda os mistérios do coração da sua amante, à proporção que lhe vai devassando a alma e penetrando familiarmente por todas as sutilezas e todos os esconderijos do seu caráter, do seu gênio, do seu temperamento e da sua ternura, sente desfalecer-lhe no sangue o primitivo impulso, e só continua a amar por hábito ou por gratidão. Violada a última gaveta da alma de uma mulher, o homem cai prostrado pela indiferença.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.