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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Estava mais tranqüilo, que era o principal; já quase nada lhe tremia a mão ao receber das do bedel uma folhas de papel almaço, rubricada pelos lentes, das que ia aquele distribuindo por todas banquinhas dos examinandos.

— Ali, naqueles miseráveis dois vinténs der papel, tinha ele de determinar o seu futuro, a sua posição na sociedade, talvez a própria vida de sua mãe, dizendo o que sabia a respeito do tal Hidrogênio!...

Experimentou a pena, endireitou-se na cadeira, e escreveu, caprichando na letra e procurando obter estilo.

A areia da ampulheta esgotava-se defronte da calva e dos bocejos do senhor presidente. Correu meia hora; Amâncio ergueu-se afinal, entregou a sua prova e saiu das sala, a esfregar, muito preocupado, os dedos das mão direita contra a palma da esquerda.

À porta, mal acendera sofregamente o cigarro, contava já aos seus amigos o que havia exposto pouco mais ou menos. — Ah! com certeza pilhava uma — nota boa! — Não era por querer falar, mas a sua prova saíra limpa. “Assim não fosse o ponto tão ingrato!...”

E ficaria a prosar sobre o caso, se o Coqueiro, aguilhoado pela ausência do almoço, não o arrancasse dali.

* * *

A nota foi boa, efetivamente.

Soube-o Amâncio no dia seguinte, logo que correu à secretaria. Não contava, porém ficar tranqüilo, senão depois do resultado de sua provas oral.

Novos sobressaltos foram se agravando durante os dias que era preciso esperar. Votavam-lhe as aflições; no fim de algum tempo já não podia comer, não podia ligar duas idéias sobre qualquer coisa e não conseguia repousar duas horas seguidas. Ficou ainda mais desnorteado que da primeira vez.

Amelinha, então, o estimulava com as suas garrulices e pomba que já fez ninho. Puxava por ele, tentando arrancá-lo daquele estado, mas não conseguia lhe despertar um só dos antigos momentos de bom humor, nem lhe merecer uma de suas primitivas caricias

O rapaz andava tonto, cheio de pressentimentos e de sustos. Tornou-se até supersticioso. — Não podia ver entrar no quarto uma borboleta de cor mais escura; não podia suportar o grunhir dos cães, nem queria que a amante prognosticasse “um bom resultado nos exames”

— É melhor não falar!...dizia ele, muito esmalmado.

Mas que prazer o seu ao voltar pronto da escola! Jamais tivera um contentamento tão agudo. Ria sem motivo, sentia ímpetos de abraçar a toda gente, pulava, cantava, parecia doido..

Soubera do resultado no mesmo dia da prova oral, por intermédio de um dos professores. — Saíra aprovado plenamente.

Vencera!

Colegas o acompanharam até a casa. Lá ia o Paiva, sempre com o seu olhinho irrequieto e mexeriqueiro, o seu todo enfrenesiado e farto “desta porcaria de mundo”. Lá ia o triste Salustiano Simões, encasmurrado no seu ar incrédulo e bamba, a mascar o cigarro, a aba do chapéu encostada à gola sebosa do fraque

Abriram-se garrafas de champanha; fizeram-se brindes. João Coqueiro desmanchava-se em sorrisos, como se partilhasse diretamente de todas aquelas manifestações.

Foi muito elogiado o exame de Amâncio, tocaram-se os copos, entre fervorosas palavras de animação; falou-se em “filhos diletos da ciência”, em “liberdade”. Em “geração nova”, em “mineiros do progresso”.

Todavia, Amâncio, em ar feliz e pretensioso, confessava o pouco que estudara e gabava-se de sua fortuna. — Podia dar a palavra de honra em como mal havia tocado nos livros durante o ano. — O Coqueiro e a família estavam ali, que dissessem!...

E basofiava a respeito de sua presença de espírito particularizando circunstâncias comprobativas de uma sagacidade a toda prova.

— Cá o menino não se aperta! Dizia ele, muito satisfeito consigo.

Expediu-se um telegrama para o Maranhão, dando noticia do grande “acontecimento”. O Simões e o Paiva ficaram para jantar. Já estavam todos à mesa, quando apareceu o copeiro com uma carta que um portuguesito acabava de trazer.

Era do Campos. O bom negociante queria festejar o êxito feliz do — jovem acadêmico — com “uma pequena reunião familiar. Pena era que o Dr. Amâncio estivesse de luto”.

“Não há festa”, explanava a carta, “apenas se reúnem alguns amigos para lhe beber à saúde; e o doutor bem pode trazer em sua companhia mais alguns”.

Amâncio declarou logo que não dispensava o Simões e o Paiva Rocha e exigiu que o Coqueiro levasse consigo a família.

Pois iriam, iriam todos, até o César. Mas o festejado teve de franquear o seu guarda-roupa àqueles dois colegas que não queriam apresentar-se mal amanhados em uma casa, onde entravam pela primeira vez.

O Coqueiro, em particular, exprobrou-lhe essa franqueza:

— Foge da boêmia!... disse-lhe, no seu diapasão de homem sério. — Foge da boêmia, rapaz! Esses tipos não merecem que se lhes faça a menor coisa!... metem os pés — sempre! Já os conheço; não seria eu quem os convidara para a casa de ninguém! É gentinha que só está habituada a cafés e botequins, não respeitam família! Para eles as mulheres são todas iguais!...

(continua...)

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