Por José de Alencar (1875)
- Poupemos aos nossos mútuos sarcasmos a augusta santidade do amor conjugal, disse ela comovida. Deus não nos concedeu essa inefável alegria, a fonte pura de quanto há de nobre e grande para o coração. Ficamos... Eu pelo menos... órfãos e deserdados nessa benção celeste; mas nem por isso podemos recusar-lhe a nossa veneração.
Mal acabava de proferir estas palavras sentidas e vindas do íntimo, que a moça arrependida de haver cedido à emoção, desfolhou dos lábios um sorriso argentino, e afetou o seu costumado tom de volubilidade:
- Quer saber minha opinião? Isto que o senhor chama de escravidão, não passa de violência que o forte exerce sobre o fraco; e nesse ponto somos todos mais ou menos escravos, da lei, da opinião, das conveniências, dos prejuízos; uns de sua pobreza, e outros de sua riqueza. Escravos verdadeiros, só conheço um tirano que os faz, é o amor; e este não foi a mim que o cativou.
Achavam-se nesse instante na sala, em face da cadeira ocupada por Adelaide Ribeiro.
- D. Adelaide, faça-me um favor. Guarde-me este fugitivo, e tenha-o cativo, ao menos durante esta contradança.
- É um depósito? Perguntou Adelaide maliciosamente. Aceito; mas sem responsabilidade.
- Não há risco.
Enquanto a mulher de Ribeiro consertava os fofos e a cauda de seu elegante vestido para tomar o braço do par que a dona da casa lhe oferecera com tanta amabilidade. Aurélia estreitando-se ao flanco do marido disse-lhe ao ouvido e com expressão estas palavras:
- Restituo-lhe sua liberdade. Já o disse uma vez; agora o realizei.
- E eu rejeitei então como agora, respondeu-lhe o marido no mesmo tom.
- Por que? perguntou a moça com viva interrogação na voz e no olhar.
- Não é porque desejo tolher a sua. Esteja descansada.
- De certo! disse Aurélia com desdenhosa inflexão da fronte.
- A razão é outra.
- Quero saber.
- Espero em Deus, que a saberá um dia.
Tinham-se afastado alguns passos para não serem ouvidos. Aurélia fitara os olhos no marido, excitada pelo tom das últimas palavras; e preparava-se talvez a exigir a explicação, quando ouviu o frolo do vestido de Adelaide que se aproximava.
Soltou o braço do marido e afastou-se.
A música dava o sinal da quadrilha. Passou o Alfredo Moreira, que vinha borboleteando pela sala, como um sátiro que adeja na selva à cata de uma flor. Fernando adivinhou que essa flor era um par, e encartou-lhe a Adelaide Ribeiro em risco de infringir o código dos salões, faltando às regras da polidez.
- Não tem par, Moreira? Aqui está D. Adelaide, que sem dúvida estimará a troca, pois lhe dá por cavalheiro, em vez de um aposentado, o príncipe da elegância fluminense.
Sem esperar resposta, deixou a moça ao leão que expandia-se como uma tulipa, esticando as guias do bigode encerado. Seixas contava com a sua posição de dono da casa, empenhado em fazer dançar seus convidados para desculpar a estratégia, com que se dispensara da quadrilha.
Frustrou assim o capricho de Aurélia, o qual o incomodara. Por que? Não poderia bem apurar a razão no encontro das impressões do momento. Desejo de convencer a mulher de sua indiferença para Adelaide; repugnância de manter a gravidade duma situação que se complicava; tudo isto passou-lhe pelo espírito.
Corria a reunião sempre animada. Tinham chegado mais convidados; e a partida transformara-se em baile, como muitas vezes acontecia.
A frauta soltou o cintilante prelúdio de uma valsa de Strauss.
Os valsistas afamados deixaram-se ficar de parte, sem dúvida para se fazerem desejar. Os calouros e a gente de encher hesitavam em tomar a dianteira; algum mais afoito achou-se em branco; não encontrou par.
De repente correu pela sala este rumor, a valsa dos casados, e logo após ouviu-se a risada cristalina de Aurélia, esse trilo fresco, límpido, que às vezes escapava-se-lhe dos lábios, como se os dentes de pérolas se lhe desfiassem entre os rubis a roçar uns nos outros.
A formosa mulher atravessava a sala pelo braço do velho general Barão do T. que para não desmentir seu garbo marcial, fazia naquele momento prova de um heroísmo superior ao que mostrara na última guerra do Paraguai, onde havia sido um meio Bayard, sans peur, mas não sans reproche.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.