Por José de Alencar (1875)
Este trecho de diálogo travou-se na alameda artificial, que em noites de reunião, se dispunha ao longo da sala de jantar com palmeiras, acácias e magnólias plantadas em vasos de louça e caixas de madeira.
Fernando que se havia refugiado um instante naquele recanto, e fumava sentando em um sofá rústico à sombra de um plátano, ouviu a maledicências dos dois leões. Buscando com os olhos o alvo do remoque, viu sua mulher que falava ao cavalheiro com uma insistência meiga e sedutora, que lembrou-lhe a época de seus primeiros amores.
- Ama-o! murmurou.
Depois não viu mais nada, o par desaparecera da sala, e ele submergira-se em sua alma. Só deu acordo de si, quando a voz da mulher despertou-o surpreso.
- Há que tempo o procuro! disse Aurélia sentando-se a seu lado, e olhando-o inquieta. Está incomodado?
- Não, senhora; tive há pouco o prazer de vê-la dançar com o Abreu.
Aurélia lançou um olhar rápido e penetrante ao marido.
- É verdade; dancei com ele; é um de meus pares habituais, tornou com volubilidade.
E o senhor, por que não dançou também?
- Porque a senhora não me ordenou.
- É esta a razão? Pois vou dar-lhe um par... Quer oferecer-me seu braço? replicou Aurélia sorrindo.
- Seria ridículo oferecer-lhe o que lhe pertence. A senhora manda, e é obedecida.
Aurélia tomou o braço do marido, e afastou-se lentamente ao longo da alameda. - Por que me chama senhora? perguntou ela fazendo soar o ó com a voz cheia.
- Defeito de pronúncia!
- Mas às outras diz senhora. Tenho notado; ainda esta noite.
- Essa é, creio eu, a verdadeira pronúncia da palavra; mas nós, os brasileiros, para distinguir da fórmula cortês, a relação de império e domínio, usamos da variante que soa mais forte, e com certa vibração metálica. O súdito diz à soberana, como o servo à sua dona senhóra. Eu talvez não reflita e confunda.
- Quer isso dizer que o senhor considera-se meu escravo? perguntou Aurélia fitando Seixas.
- Creio que lho declarei positivamente, desde o primeiro dia, ou antes desde a noite de que data a nossa comum existência, e minha presença aqui, a minha permanência em sua casa sob outra condição, fora acrescentar à primeira humilhação uma indignidade sem nome.
Aurélia replicou dando à sua voz inflexão triste e repassada de sentimento.
- Já não é tempo de cessar entre nós estas represálias, que não passam de truques de palavras? Temos para separar-nos motivos tão graves, que não carecemos de estar a beliscar-nos a todo o momento com semelhantes puerilidades. Eu dei o mau exemplo; devo ser a primeira a fazer ato de contrição. O senhor é meu marido, e somente meu marido.
- O que lhe disse não é uma banalidade, mas uma convicção profunda, uma coisa séria, a mais séria de minha vida; breve há de reconhecê-lo. Não empreguei a palavra escravo no sentido da domesticidade; seria soberbamente ridículo. Mas a senhora deve saber que o casamento começou por ser a compra da mulher pelo homem; e ainda neste século se usava em Inglaterra, como símbolo do divórcio, levar a repudiada ao mercado e vendê-la ao martelo. Também não ignora que no Oriente há escravas que vivem em suntuosos palácios, tratadas como rainhas.
- As sultanas?
- Ora esse poder ou esse luxo que o homem se arrogou, por que não o terá a mulher deste século e desta sociedade, desde que lhe cresce nas mãos o ouro que é afinal o grande legislador, como o sumo pontífice?
A palavra de Seixas era acre, e queimava os lábios.
- Sou marido!... É verdade; como Scheherazade era mulher do sultão.
- Menos o lenço! acudiu Aurélia com um remoque.
Mas a ironia não pode abafar a sublevação irresistível do pudor, que cerrou-lhe as pálpebras e cobriu-lhe as faces e o colo de vivos rubores.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.