Por Aluísio Azevedo (1882)
Descobria-se nela, na sua presteza, nos seus movimentos, a boa vontade com que fazia tudo aquilo. Em breve, de um quarto próximo ao em que estava a mulher do comendador, vinha um cheiro picante de peixe que se frigia e chilrava ao fogo. A segurança do lugar, a boa hospitalidade e a expectativa da ceia principiaram a reanimar totalmente as forças de Teresa. Quando a negra acendeu mais um candeeiro, cobriu a mesa com uma branca toalha de algodão e trouxe o primeiro prato, já não havia sinal de lágrimas.
— Você está se incomodando muito, tia Agueda! balbuciou a senhora.
— Hê, Neném! Não diga tolice! repreendeu a preta, a saracotear pela sala.
E declarou que só o que sentia era não ter uma casa melhor para receber a sua querida filha de leite.
— Está tudo muito bom, emendou Teresa, procurando já tentar um sorriso.
Agueda era uma preta muito asseada. As paredes da sua pobre casa estavam limpas, o chão cuidadosamente varrido e os raros trastes escovados. Havia uma cômoda, já velha, com puxadores de vidro verde, sobre a qual se estendia uma clássica toalha de rendas e se perfilavam várias imagens de santos. Pelas paredes viam-se litografias de assuntos religiosos emolduradas em madeira. A um canto destacava-se um pequeno oratório, forrado de papel de cor e guarnecido de galões amarelos; duas velas o iluminavam e faziam sobressair de dentro a figura mal talhada de um Santo Antônio, vivamente colorido e cercado de alecrim seco e de flores viçosas.
Uma mesa forrada de lençóis e um tabuleiro cheio de camisas engomadas, denunciavam o trabalho desse dia; e, ao lado, um grande cesto, pejado de roupa lavada, prometia o serviço do dia seguinte. Tia Agueda vestia saia e camisa. Viamse-lhe as grandes espáduas gordas, o pescoço forte, enfeitado de corais e contas redondas de ouro. Os braços saíam nus das rendas do cabeção em toda a sua negra exuberância; os quadris jogavam rijamente quando ela apressava o passo nos arranjos da ceia.
Teresa parecia já consolada e gozava intimamente da novidade daquela situação. O estômago reclamava alimento e o corpo pedia repouso. Foi com prazer que ela se deixou conduzir para a mesa pela carinhosa mulher. Os pratos escaldados, as facas de ferro reluzente, os copos nitidamente areados, faziam apetite. Uma travessa de peixe frito enchia o ar com o seu aroma apimentado e quente.
Tia Agueda foi ao armário buscar mais o que havia, e convidou Teresa a principiar.
— Sente-se então aqui, ao pé de mim, reclamou a amante do Portela.
Já vai Neném; deixa primeiro ver uma garrafa de vinho aqui dentro...
Ela há muito tempo que possuía e guardava com cuidado essa garrafa. Dera-lhe o seu ex-senhor por ocasião de uma festa.
— Ainda é lá de casa, declarou a preta, mostrando a Teresa a preciosa garrafa. Presente de sinhô velho!...
— E mal sabia você, tia Agueda, que o seu presente ainda havia de servir para mim...
— Então?! E para uma ocasião destas que se guardam as coisas!
Aberta a garrafa de vinho, Agueda encheu o copo da querida hóspede, e foi assentar-se ao lado dela.
— Ah, tia Agueda! disse Teresa, comendo com muita vontade; se você soubesse o que me tem sucedido ultimamente!...
— Está bom, come primeiro, que depois se conversa...
Mas a rapariga, quando acabou de saciar a sua fome, declarou que se sentia incomodada; tinha o corpo mole e aborrecido, a comida caíra-lhe na fraqueza. — Descansa, Neném, aconselhou a negra.
Teresa deitou-se; pediu à amiga que a despisse e descalçasse, e recomendou-lhe depois que fosse à casa do comendador e se entendesse com a criada Rosa para lhe trazer roupa limpa.
— Seu Ferreira não precisa saber que você foi lá buscar roupa... ouviu?... disse ela bocejando, com os olhos fechados.
— Não durma sem tomar café! objetou tia Agueda, apresentando-lhe a xícara. Teresa tomou o café, quase dormindo.
— Bem, vá, recomendou ela; não se demore, ouviu?
E, voltando-se na cama, adormeceu.
No dia seguinte, quando acordou, o sol entrava já pela janela e projetava no chão grandes manchas luminosas. Teresa dormira um sono completo e acordara bem disposta. Agueda preparou-lhe o banho, e, como desjejum, café com leite e pão com manteiga.
— Veio a roupa? perguntou aquela.
— Está tudo aí, Neném; mas há o diabo em casa de seu Ferreira...
Conta! conta o que há!
— Ele caiu doente esta noite...
— Doente? de quê?
— Ataque. Jacó é quem sabe da história; diz que estava despindo seu Ferreira, quando o homem cambaleou, cambaleou, e caiu como morto.
— Uma congestão! exclamou Teresa em sobressalto. E depois, como ficou ele?!
— O Dr. Roberto está lá...
— Dá-me a capa, tia Agueda; vou já para casa!
E Teresa, agradecia interiormente ao marido aquela moléstia, que vinha de qualquer forma desviar as atenções assestadas sobre ela.
Mas também, ter de apresentar-se assim em casa, sem mais nem menos, era o diabo: considerava a leviana, enquanto ajustava o chapéu e endireitava a roupa. Olímpia sem dúvida estaria lá! Que não ficariam julgando de tudo aquilo?!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.