Por Aluísio Azevedo (1884)
Ultimamente viera-lhe uma febre de formatura, queria a todo o custo “passar “no primeiro ano. — Também era só do que fazia questão, “passar no primeiro”, porque, quanto aos outros, tinha certeza de se preparar melhor e com mais antecedência. agora, lamentava o tempo perdido na preguiça e na moléstia; dava ao diabo os seus amores, e vivia numa dobadoura a arranjar empenhos e cartas de proteção. Agarrou-se ao Campos; agarrou-se àquele Dr. Freitinhas (do baile do Melo) que era unha com carne de um dos examinadores. E furou, e virou, e percorreu amigos e desconhecidos, até se julgar “garantido”. Então, pagou a Segunda matrícula e entregou-se de olhos fechados a destino. “Seria o que Deus quisesse!”
Era, pois, o Coqueiro quem dirigia as obras da casa da irmã. O metódico rapaz sempre tivera paixão por esse gênero de trabalho.
— Se fosse rico, afirmava ele, — muito prédio havia de fazer, só pelo gostinho de acompanhar as obras!
CAPÍTULO XVI
Chegou, finalmente a véspera do amaldiçoado exame.
Que ansiedade! Que de angústias para o pobre Amâncio! que noite, a sua!— Não descansou um segundo; apenas, já quase ao amanhecer, conseguiu passar pelo sono; antes, porém, não dormisse, tais eram os pesadelos e bárbaros sonhos que o perseguiam.
Via-se entalado num enorme rosário de vértebras que se enroscava por ele, como uma cobra de ossos; grandes tíbias dançavam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas nas pernas; as fórmulas mais difíceis da química e da físicas individualizavam-se para o torturar com a sua presença; os examinadores surgiamlhe terríveis, ríspidos, armados de palmatória, todos com aquela feia catadura do seu ex-professor de português no Maranhão.
Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acadêmico amesquinhava-se às ridículas proporções do exame de primeiras letras. Era a mesma salinha do mestreescola, a mesma banca de paparaúba manchada de tinta, o mesmo fanhoso Sotero dos Reis presidindo a mesa, João Coqueiro, o Paiva e o Simões, vestidos de menino, fitavam o examinando com um petulante riso de escárnio. Amâncio sentia corre-lhe o suor por todo o corpo e agulhas invisíveis penetrarem-no até à medula. O professor, transformado em juiz e ostentando as feições do falecido Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas as suas perguntas, em vez de concernirem às matérias do ato, só se referiam a Amélia.
— Por que matou você a pobre menina?! Bramia o pai cravando-lhe olhares de fogo: — Responda, seu canalha! Responda! Ah! Pensa que ainda não sei de que você, para melhor a seduzir, lhe havia prometido casamento e jurado olhar sempre para ela, seu cachorro?!
O Coqueiro ,lá do canto, sacudia a cabeça afirmativamente e enviava a Amâncio caretas de vingança. Ao lado deste, o cadáver de Amélia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe gotejava golpeava de golpejava de um dos seios rasgados de alto a baixo
O réu queria responder, justificar-se, expor a verdade; eram, porém, baldados os seus esforços: não consegui articular uma palavra; gelatinava-se-lhe a voz. na garganta ,empacando-lhe a fala.
— Bem! Gritou o velho Vasconcelos à meia dúzia de soldados que escoltavam Amâncio. — Conduzam esse miserável ao cepo e cortem-lhe a cabeça!
O estudante atirou-se de joelhos, com as mãos postas, chorando, suplicando que o não matassem. mas os soldados apoderaram-se dele com violência e ataramlhe os braços. O Juiz, Coqueiro, Simões, o Paiva, sumiram-se de repente, soltando gargalhadas. Amâncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado; os soldados, quando o percebiam vacilar, batiam-lhe no ombro com a coronha das espingardas. Chegou a um pátio lajeado e úmido, onde milhares de homens armados formavam alas; no centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia um machado à sua espera; e, de joelhos, abraçado a um crucifixo,
um padre velho, de longos cabelos brancos, engrolava latins Fizeram silêncio.
No meio das respirações abafadas, só se ouviam os passos trôpegos e o aflitivo resfolegar do condenado que, à ponta de baioneta, subia os degraus do cadafalso.
Veio o carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e empunhou o ferro.
Amâncio não se resolvia a entregar o pescoço, mas o velho Vasconcelos, que surgira por detrás dele, atirou-lhe um murro à nuca e fê-lo cair de bruços contra o cepo.
Então, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados num rufo estridente de tambores.
Amâncio sentiu o aço frio entrar-lhe na carne do toutiço, espipar o sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se às lajes.
* * *
Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador, que ficara de véspera com toda a corda para as seis da manhã, continuava o rufo penetrante dos tambores.
O estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a mão pela testa; os dedos voltaram ensopados de suor.
Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos saindo daquele estado de excitação, mas voltando lentamente à taciturna agonia da véspera.
Vestiu-se quase sem consciência do que fazia; esqueceu-se até de escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros, sem aliás, conseguir firmar a atenção sobre coisa alguma.
E Amâncio tremia todo só com a idéia de sua inabilidade. À medida que as horas se esgotavam e o momento fatal se lhe antepunha, um langor covarde e mulheril crescia dentro dele, produzindo-lhe arrepios que principiavam na ponta dos pés e iam-se estendendo pela espinha dorsal, até lhe interessar a cabeça, depois de percorrer as regiões abdominais.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.