Por Aluísio Azevedo (1884)
Amâncio nunca lhe achou a pele tão fina, os dentes tão brancos, os olhos tão vivos e tão formosos. O pálido e ondulante pescoço da menina jamais lhe pareceu tão misterioso: a sua garganta, macia e doce, jamais o cativara tão despoticamente. Ele, enfim, nunca a sentira tão necessária, tão indispensável.
E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe perpassaram vertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe por todo o corpo um apetite brutal de readquirir, no mesmo instante, aquela riqueza, que lhe fugia por entre os dedos, como um vinho precioso que se derrama.
— Então a culpa é minha?...disse ele, afinal, apalpando com a vista a carne esperta dos quadris e dos braços da amante.
— Pois você não vê, respondeu ela, voltando-se espevitada — que as coisas não podem continuar como até aqui?! É uma canseira insuportável! Quase que já não durmo! Preciso esperar de olho aberto que toda a casa ser recolha e recolherme ao quarto antes que os mais se levantem! O resultado é que não descanso; ando tresnoitada; estou enfraquecendo! Já tenho até uma dor do lado. Quem pode com esta vida?! Ah! você não sente, bem certo! Porque muita vez o encontro a dormir, e dormindo o deixo quando saio! Mas eu?! Se quero que não aconteça como outro dia (que nem sei como não deram pela coisa!) o remédio que tenho é ficar alerta e não deixar que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! Vê você?!
— Mas daí?...perguntou Amâncio, no fundo compenetrado de que “a pobre menina” não deixava de ter o seu bocadinho de razão.
— Daí...esclareceu Amélia, — é que nessa tal casa de que lhe falei, e que está para se vender muito em conta, há, além dos cômodos necessários para Loló e Janjão, dois quartos magníficos, com entradas independentes e comunicáveis entre si por uma pequena alcova. Ora, um dos quartos dá para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar; no caso de que arranjássemos o negócio, você ficaria com um e eu ficaria com o outro, e dessa forma acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante o dia abriam-se as portas do lado de fora e fecham-se as de dentro, mas à noite praticava-se justamente o contrário, e ficávamos nos em completa liberdade! Compreende você agora?...
— Sim, Amâncio compreendia e até achava o plano muito bem lembrado, mas a questão é que não via necessidade d comprar a casa, era bastante alugá-la...
— Sim, sim! mas é que o dono não a aluga, quer vendê-la. E onde ia você encontrar outra casa nessas condições?...
— Hei de passar por lá...
— Não. Vamos hoje mesmo, à tarde. Loló já prometeu que nos acompanha. — Pois sim.
E Amâncio puxou Amélia pelo braço, para lhe dar um beijo.
— Deixe-me...rezingou ela, ainda com um restinho do arrufo. Você só cuida de si e das suas comodidades...Egoísta!
— Não digas isso, meu bem!
— Pois não é assim?! Qual foi a vontade séria que você já me fez? É bastante que eu mostre gosto numa coisa, para você fazer justamente o contrário...Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei tudo que possuía!
E começou a chorar, muito infeliz, a dizer que Amâncio tinha razão! — Ninguém lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se entregado senão depois do casamento!
E as suas lágrimas enxugavam-se nos lábios dele.
E assim ficaram alguns minutos, até que Amélia, de repente, se lhe tirou dos braços e, abrindo distancias, declarou de longe, em plena atração de seus encantos, que “não faria nenhum caso de Amâncio enquanto não possuísse o chalé”.
Nessa mesma noite ficou assentado que o rapaz, em nome da amante, compraria a casa das Laranjeiras.
* * *
Com efeito, umas semana depois, tratava-se da escritura de compra. O negócio correu a galope, visto que a propriedade era de um pândego sequioso por dinheiro.
Podiam cuidar logo da nova mudança; Amélia, porém, não consentiu em tal, sem que se realizassem umas tantas benfeitorias que a “sua” casa reclamava; substituir, por exemplo, o papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe água, que não havia, e fazer esteirar os aposentos destinados para si junto com seu homem.
Mas Amâncio não podia distrais tempo com essas coisas: andava muito absorvido pela idéia dos exames que se aproximavam.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.