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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- É meu marido, respondeu a moça erguendo a cabeça com serena altivez. 

Ribeiro compreendeu a palavra e o gesto. Em verdade, o homem que tinha a suprema ventura de ser o esposo querido dessa mulher, podia suspeitá-la? 

- Supunha-se em seu lugar, o senhor que sabe uma parte de minha história. Depois do que lhe dei, a ele, julgar-se-ia com direito a esse triste sacrifício da vida de um infeliz? Não, certamente. 

Nesse instante, Aurélia que distraíra-se com a conversa, viu Adelaide já sem capa, e suspensa ou antes enlaçada ao braço de seu marido com um abandono que ela, sua mulher, não se animaria a mostrar em público. 

Aurélia por um impulso que não pode conter, apesar do império que se habituara a conservar sobre si, deixou o braço de Ribeiro para lançar-se de encontro do outro par e separou os dois, insinuando-se entre eles. Aí recobrou-se, ao perceber a surpresa que se pintava no semblante dos outros, buscou disfarçar, afetando uma risada e trançando no seu braço da mulher de Ribeiro. 

- Escute, quer dizer-lhe um segredo, D. Adelaide! 

Afastou-se levando a amiga. O segredo foi um remoque a propósito de certa loureira que passava; e depois uma indireta ao desgarro de certas senhoras, que timbram em imitar aquelas a quem mais desprezam. 

- Dê-me a minha capa! disse Aurélia com rispidez a Seixas. 

Antes que este pudesse satisfazê-la, tirou-lhe da mão a caxemira que Adelaide tinha dado a guardar, embrulhou-se nela, e tomou o braço do marido.

- Vamos? 

Seixas admirado deixou-se conduzir, supondo que tornavam ao camarote. Ao chegarem defronte da escada, Aurélia esperou para despedir-se de Adelaide. 

- Já se retira? perguntou a amiga cada vez mais surpresa. 

- Prometi a minha madrinha, D. Margarida Ferreira, ir vê-la esta noite. Passei por aqui somente para gozar da sua companhia. 

Aurélia tivera esta lembrança, no caminho do salão para o camarote; era uma excelente explicação de seu desaso de tomar à amiga o braço do marido, e o melhor pretexto para cortar de vez o desagradável incidente. 

Seixas acompanhou a mulher, sem a mínima observação. Entraram no carro; o cocheiro que não recebeu ordem alguma, dirigiu-se para Laranjeiras. D. Margarida Ferreira morava em Andaraí. 

Não vai à casa de sua madrinha? 

A resposta foi breve e seca: 

Não; já é tarde. 

Aurélia revoltava-se contra si mesma, por causa daquele momento de fragilidade. Como é que ela depois de haver arrebatado à sua rival o homem a quem amava, e de haver desdenhado esse triunfo, por indigno de sua alma nobre, dava a essa rival o prazer de recear-se de suas seduções? 

Descontente, contrariada, cogitava uma vindita desse eclipse de seu orgulho. 

- O que é o ciúme? disse de repente sem olhar o marido, e com um tom incisivo. 

Seixas compreendeu que aí vinha a refrega e preparou-se, chamando a si toda a calculada resignação de que se constumava revestir. 

- Exige uma definição fisiológica, ou a pergunta é apenas mote para conversa? 

- Acredita na fisiologia do coração? Não lhe parece um disparate, esta ciência pretensiosa que se mete a explicar e definir o incompreensível, aquilo que não entende o próprio que o sinta, e que sinta-se, sem ter muitas vezes a consciência desse fenômeno moral? Só há um fisiologista, mas esse não define, julga. É Deus, que formando sua criatura do limo da terra, como ensina a escritura, deixou-lhe ao lado esquerdo, por amassar, uma porção de caos de que a tirou. Quanto ao ciúme, todos nós sabemos mais ou menos a significação da palavra. O que eu desejava era saber sua opinião sobre este ponto: 

se o ciúme é produzido pelo amor? 

- Assim pensam geralmente. 

- E o senhor? 

- Como nunca senti, não posso ter opinião minha. 

- Pois tenho-a eu, e por experiência. O ciúme não nasce do amor, e sim do orgulho. O que dói neste sentimento, creia-me, não é a privação do prazer que outrem goza, quando também nós podemos gozá-lo e mais. É unicamente o desgosto de ver o rival possuir um bem que nos pertence ao cobiçarmos, ao qual nos julgamos com direito exclusivo, e em que não admitimos partilha. 

(continua...)

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