Por Aluísio Azevedo (1882)
— Além de tudo, sinto vertigens! disse ela, deitando-se na cama.
E, daí a pouco, dormia de novo.
Vejamos, entretanto, o que por esse tempo fazia Portela.
Logo que se retirou o comendador, o astucioso caixeiro, depois de curar a cabeça da amante, meteu o revólver na algibeira e ganhou a rua com direção à casa do seu compadre Leão Vermelho, que então, como se deve lembrar o leitor, morava no Campo de Santana, em companhia daquela nossa conhecida Henriqueta, de cuja extinta casa de pensão, já outrora fizera parte o amante de Teresa.
Leão Vermelho sofria por essa época a implacável perseguição de que falamos, e partia no dia seguinte para Buenos Aires.
— Compadre, exclamou Portela, assim que se achou defronte dele; venho disposto a seguir com você!
O comissário fez um gesto de espanto e pediu ao outro que se explicasse.
— Vai sempre amanhã? perguntou o padrinho de Clorinda.
— Definitivamente.
— Pois vamos juntos. Não me convém ficar mais tempo no Rio de Janeiro.
Tenho poucos recursos; irei como seu empregado, serve-lhe?
— Mas que resolução foi essa? interrogou Leão Vermelho.
— Questões de amor! explicou Portela, fazendo-se contrariado. Não posso ficar aqui... Já deixei o emprego. Já liquidei todos os meus negócios. Só desejo saber se posso ou não contar com você...
— Pois não; eu até estimo. Nunca lhe propus semelhante coisa, porque sempre me pareceu que ela lhe seria pouco vantajosa; mas uma vez que você o quer...
— Posso então preparar-me?
— Decerto.
— Pois até amanhã.
E Portela saiu da casa do compadre para se ir despedir do emprego, que lhe havia arranjado o comendador; recolheu as suas economias, pagou uma ou outra pequena dívida, e seguiu afinal para Catumbi. Encontrou Teresa dormindo.
— O quê?! disse ele entrando assustado no quarto. Pois esta mulher ainda não voltou a si?!...
Ela acordou logo, fez um grande espanto quando o viu e desfez-se em perguntas; queria saber tudo o que havia sucedido, os perigos a que o amante se expusera.
— Tu deves estar caindo de fome! observou ele. É quase noite. Eu vou arranjar-te o que comer. Espera.
— Não, conta-me primeiro o que há, o que se passou aqui. Estou louca por saber de tudo!
— Resume-se tudo em duas palavras, disse Portela: Teu marido procedeu contra mim, tenho a justiça sobre a cabeça e fujo amanhã mesmo do Rio de
Janeiro...
— Eu vou contigo! exclamou ela, abraçando-o.
— Impossível! respondeu o rapaz. Para fazer semelhante viagem, precisei arranjar-me como secretário de um sujeito que sai, amanhã ou talvez depois, para a Europa; ele consente em levar-me com a condição de que eu vá só...
— E eu?! perguntou a mulher do comendador, empalidecendo.
— Tu voltas para a companhia de teu marido. Ele está resolvido a perdoar-te tudo e a receber-te de novo.
— Isso é que é impossível, nem tampouco me convém!
— Mas, filha, olha que é o único recurso que há!
— Pois então mato-me!
— Deixa-te de tolices!
— Duvidas?!
— Não duvido, mas reprovo.
E ficaram calados por algum tempo.
— Eu vou buscar-te a ceia, disse afinal Portela, erguendo-se da cama, onde se tinha assentado.
— Não quero nada! respondeu ela de mau humor.
— Deixa-te disso comigo! pediu o outro, ameigando-a por condescendência.
— Solta-me! resmungou ela, empurrando-a. Deixa-me! Deixa-me!
E pôs-se a chorar.
Agora temos choro! disse o rapaz, coçando a cabeça.
Teresa soluçava a chamar-se desgraçada, a maldizer-se, a pedir que a matassem.
— Tu me fazes perder a paciência! exclamou Portela, zangando~se afinal. Estou a dizer-te os apuros em que me veio; e tu a te fazeres desentendida! Ora sebo!
E depois de passear pelo quarto, com as mãos nas algibeiras, parou defronte da amante e disse-lhe em voz áspera:
— Pois, filha, se não queres ir para a casa de teu marido, vai para o inferno!
Eu não posso tomar conta de ti! Aí tens!
— Tu és um vilão! respondeu ela, quase sem alento.
— É melhor não puxarmos pela língua! replicou Portela, porque te sairias muito mal!
— Quem sabe se tenho medo de ti?!
— Pior!
— Se te parece dá-me agora bordoada! Também é só o que falta!
— Ó mulher! cala-te com todos os diabos!
— Foi bem feito! Quem me mandou acreditar em um canalha de semelhante espécie!?
— Não! Isso agora tenha a paciência... Foi a senhora quem me provocou...
Eu estava perfeitamente sossegado!
— Hem?! Como?! Você não me provocou?! E a quanto pode chegar o cinismo!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.