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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Nem com a minha morte? interrogou o rapaz, desviando a arma.

— O senhor não morrerá! exclamou o velho. Prefiro que viva e tenha de trazer aquela miserável às costas. E essa a minha vingança! Mais tarde, ou o senhor a desprezará ou ela lhe dará de beber as mesmas amarguras que me entornou no coração! Em qualquer dos casos, eu me julgarei satisfeito. O amante será enganado muito mais facilmente do que foi o marido...

— Mas, disse Portela, se era esse o seu propósito, para que então me denunciou à polícia?... para que me perseguiu desta forma?...

— Descanse que não o quero punir judicialmente; quero obrigá-lo a tomar conta da sua cúmplice. Foi para isso que vim prevenido!

— Não era necessário tanto! respondeu Portela, com um gesto de orgulho. Eu sei cumprir com os meus deveres...

— Mas eu tenho pouco confiança em tais promessas, e prefiro assegurar melhor o negócio...

— Que diz o senhor?

— Digo-lhe que exijo uma obrigação por escrito, um termo de responsabilidade em que se comprometa o senhor a tomar conta de Teresa e manter-lhe os meios de vida enquanto ela existir. Eu tinha preparado tudo isso para mais tarde, o senhor porém precipitou os acontecimentos. É o mesmo! O que tinha de ser feito por intimação da autoridade policial, far-se-á por minha simples intimação. Leia!

E o comendador tirou da algibeira um papel selado que passou ao rapaz.

— Mas para que toda essa formalidade?... perguntou Portela, depois de ler.

— Caprichos de marido enganado... respondeu o comendador. Assine!

— Eu não assino semelhante coisa!

— Bem! nesse caso o entregarei à justiça. Escolha!

— Prefiro isso! Este papel, assinado por mim, seria uma terrível arma com que o senhor poderia perseguir-me em qualquer tempo!

— Bom, meu caro senhor, visto isso, deixemos seguirem as coisas o caminho que eu lhes havia traçado, e repito então o que disse no princípio da conversa: "Nada tenho a ouvir do senhor". Entenda-se com as autoridades competentes!

— Espere! atalhou Portela, quando o viu disposto a sair. Pense um instante! Que interesse tem o senhor em perseguir-me deste modo?!... Para que exige a minha assinatura em um documento humilhante e vergonhoso para mim?!... Sei perfeitamente que o comendador não está seguindo os impulsos do seu coração... Não queira fazer-se mau! Não queira fingir o que não é! Lembre-se de que sou pobre e preciso conservar limpa a minha reputação para poder ganhar a vida... — Oh! disse o comendador. E a sua bela resolução de suicidar-se?!

O outro abaixou a cabeça. E o comendador acrescentou:

— Quanto à sua reputação... se o senhor não se importou com ela, quanto mais eu!

— Mas do que lhe pode servir esse documento assinado por mim?...

— Isso é cá comigo! respondeu o marido de Teresa, e, fazendo nova menção de sair, acrescentou resolutamente:

— Então, assina ou não assina?!

— Assino, malvado, mas juro-te que te hás de arrepender desta violência! — Pode ser! disse o comendador, perfeitamente calmo.

Portela assinou o documento.

— Aí o tem! exclamou, empurrando o papel com arremesso.

— Bem! respondeu o comendador, dobrando o escrito e guardando-o na algibeira. Está o senhor livre! Deixo-o em plena liberdade!

E saiu, depois de despedir os soldados. Portela deixou-se cair em uma cadeira.

— Não há de ser como supões, meu pedaço de asno! monologou ele. Tu não sabes com quem te meteste!

CAPÍTULO XXIV

TIA AGUEDA

Quando Teresa voltou a si, inutilmente chamou repetidas vezes pelo amante; afinal levantou-se, apoiando-se aos móveis, e foi até à sala próxima. Não havia viva alma em casa.

— Com efeito! disse ela.

Portela antes de sair, pensara-lhe a pequena ferida da cabeça com esparadrapo.

Que teria sucedido na ausência da sua razão? considerava a infeliz, consultando a memória; recordava-se vagamente de ter escutado, na sonolência do desmaio, o som de passos repetidos no corredor e a voz do marido com as de outras pessoas que pareciam altercar. Mas tudo isso podia ser causado simplesmente pelo delírio...

De repente uma idéia lhe atravessou o espírito. Calculou que Portela, denunciado pelo comendador, estivesse àquela hora detido na polícia.

— Com certeza não é outra coisa! pensou ela aflita a contemplar as suas roupas sujas de sangue. E como havia de sair daquela situação?... No estado em que se achava, não tinha ânimo de aparecer na rua... Portela não poderia vir naturalmente em seu auxilio... Ah! se chegasse ao menos o tal Antônio que fazia a limpeza da casa!...

E Teresa arrastava-se de um para outro lado, cada vez mais ansiada e oprimida. O sangue que derramara; produzia-lhe certa fraqueza, e os olhos enfumaçavam-se-lhe como por efeito de uma formidável enxaqueca.

(continua...)

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