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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Entretanto, as épocas de exame batiam à porta. Amâncio vivia em desassossego com os seus estudos tão mal apercebidos; mas o Coqueiro dava-lhe coragem, ensinando-lhe como devia proceder, dizendo-lhe o que devia estudar de preferencia, aconselhando-o a que não tivesse medo. “Amâncio que se apresentasse de cabeça erguida: o bom êxito nos exames dependia quase sempre do desembaraço mais ou menos atrevido do concorrente!” E citava exemplos: “Fulano que apenas conhecia dois pontos de tal matéria, chimpara distinção, só porque era de um descaramento imperturbável; ao passo que sicrano, apesar de muito bem preparado, não conseguira passar com a sua vozinha trêmula e o seu todo raquítico e assustado!”

Um novo acontecimento veio, porém, desviar Amâncio daquela preocupação:

por telegrama de sua província, constou-lhe que o velho Vasconcelos morrera de beribéri fulminante.

Os pormenores chegaram no primeiro vapor: “Vasconcelos fora atacado como hoje e morrera como depois de amanhã. Ia pela rua, muito senhor de si, quando, de repente, sentiu afrouxarem-se-lhe as pernas e teria desabado no chão, se dois homens que passavam não o socorressem prontamente.

“Foi recolhido à primeira casa, que era felizmente de um amigo. Meia hora depois já lhe principiava a faltar a respiração: a moléstia subia, ameaçando-lhe o estômago. Fez-se uma junta de médicos; ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda de tempo, para qualquer parte, — Caxias, Rosário, mesmo Alcântara, a Vila do Paço, que fosse; contanto que saísse da cidade, quanto antes, até aparecer um vapor que o levasse para mais longe.

“Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direção à Vila do Paço. Mas o terrível beribéri subia sempre; os membros por onde ele atravessava iam ficando paralisado e frios como membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa torácica, Vasconcelos não pôde respirar de todo e morreu”.

Amélia, ao receber a inesperada notícia, rebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado.

O irmão também se vestiu de preto, fez cerrar as portas e as janelas da casa por sete dias e, durante esse tempo, andou tristonho e anojado.

* * *

Amâncio perturbou-se deveras com a morte do pai. Há bastante tempo mentalizava projetos de , em voltando à província, tratá-lo de modo tão carinhoso e tão amigo, que sua consciência ficasse, por uma vez, tranqüila a esse respeito. Havia no segredo de tal intenção o sabor inefável de um voto religioso. E seus planos, assim malogrado de repente, enchiam-lhe agora o coração de tristeza e as noites de sonhos tormentosos.

Mas Amelinha lá estava para o consolar, para lhe reprimir os gemidos com a polpa vermelha de seus lábios, e espantar-lhe os negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com a doçura cristalina de suas palavras.

Veio o Campos. Trataram longamente do “triste acontecimento”: Amâncio queria dar um pulo ao Norte: a mãe com certeza precisava dele as seu lado, quando mais não fosse para tratar do inventário.

O negociante já não compreendia assim: “ Estavam a chegar os exames; Amâncio, ase saísse da Corte naquele momento, perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria esperar pelas férias. Pois então! eram mais alguns dias de demora que não prejudicavam a ninguém!...”

Coqueiro pensava do mesmo modo. “Nem o colega encontraria alguém com um bocadinho de juízo que lhe aconselhasse uma semelhante viagem antes do ato. Era até loucura pensar nisso!”

Cruzaram-se cartas entre o Rio de Janeiro e Maranhão. Amâncio foi considerado maior pelo Juiz de órfãos, podia receber o que lhe tocavas na herança. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe sociedade em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e insti5tuiu na província um advogado de confiança para lhe curar os bens. Escolheu-se o Dr.Silveira, o dos cabelos pintados, aquele mesmo que, no dia do exame de português, se mostrara tão entusiasmado pelo rapaz.

Até que enfim estava Amâncio livre e senhor de sua bolsa; podia gastar à farta, sem sofrer daí em diante as peias da mesada. E não o amedrontava igualmente o risco de cair na penúria, porque ainda havia para reserva o que tinha a herdar da mãe e da avó.

Os carinhos e as solicitudes da família Coqueiro inflamaram-se, já se vê, com os últimos acontecimentos. O estudante era cada vez mais adulado e em compensação mais explorado. Agora, o irmão de Amélia não punha o menor escrúpulo lhe aceitar os obséquios e a casa ia ficando a pouco e pouco às costas do provinciano.

Era sempre por intermédio de Amélia que ele sofria a cardadura. Hoje tratavase do aluguel da casa, amanhã seria a conta do Eiras, depois a dos fornecedores; se entrava um barril de vinho para a despensa, ou um saco de feijão; se aparecia um novo aparelho de porcelana à mesa do almoço ou do jantar, Amâncio ficava à espera da fatura que, à noite, impreterivelmente, passava as mãos da rapariga para as suas.

(continua...)

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