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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Aurélia acabava de voltar-se para ele, soberba de volúpia, fremente de amor, com os olhos em chamas, os lábios túrgidos, e o seio pulando aos ímpetos da paixão: 

- Por que meu coração que vibra assim diante desta imagem, fica frio junto a ti? Por que seu olhar não penetra nele, como o raio desta pupila imóvel? Por que o toque de sua mão não comunica à minha esta chama que me embriaga como um néctar? 

Aurélia parou de repente. Uma onde de rubor banhou-lhe o rosto mimoso. Atalhada no ímpeto da paixão por um assomo de pudor, ela confrangeu-se como a flor da noite ao raiar da luz. Suspendeu a capa de caxemira que lhe tinha resvalado dos ombros para a cintura, e envolvendo-lhe com o estremecimento de um calafrio, encolheu-se no canto do divã. 

Seixas aproximou-se, fazendo-lhe a cortesia do costume; com a voz já tranqüila, e o modo natural disse:

- Boa noite. 

A moça entreabriu a caxemira quanto bastava para tirar os dedos afilados da mão direita, que estendeu ao marido. 

- Já? perguntou ela erguendo os olhos entre súplices e despóticos. 

O marido estremeceu ao toque sutil dos dedos, que calcavam-lhe docemente a palma da mão: 

- Ordena que fique? disse  com a voz trêmula. 

- Não. Para que? 

O que exprimia essa frase, repassada do sorriso que lhe servia por assim dizer de matiz, ninguém o imaginava. 

Seixas retirou-se levando n'alma a mais cruel humilhação que podia infligir-lhe o desprezo dessa mulher. 

 

II  


Aconteceu uma noite cair a conversa em assunto de literatura nacional. 

Fato raro. Entre nós há moda para tudo nos salões; menos para as letras pátrias, que ficam à porta, ou quando muito vão para o fumatório servir de tema a dois ou três incorrigíveis. 

Nesse dia fez-se uma exceção. Alguém, que tinha a prurir-lhe nos lábios a condenação dogmática de um livro que lera recentemente, apesar de publicado desde muito, aproveitou o momento para essa execução literária. 

- Já leram Diva? 

Respondeu um silêncio cheio de surpresa. Ninguém tinha notícia do livro, nem supunham que valesse a pena de gastar o tempo com essas coisas. 

- É um tipo fantástico, impossível! sentenciou o crítico. 

Acrescentou ele ainda algumas coisas acerca do romance, cujo estilo censurou de incorreto, cheio de galicismos, e crivado de erros de gramática. O desenlace especialmente provocou acres censuras. 

A crítica, por maior que seja a sua malignidade, produz sempre um efeito útil que é de aguçar a curiosidade. O mais rigoroso censor mau grado seu presta homenagem ao autor, e o recomenda. 

Pela manhã Aurélia mandou comprar o romance, e o leu em uma Sexta, ao balanço da cadeira de palha, no vão de uma janela ensombrada pelas jaqueiras cujas flores exalavam perfumes de magnólias. 

A noite apareceu o crítico. 

- Já li a Diva, disse depois de corresponder ao cumprimento. 

- Então? Não é uma mulher impossível? 

- Não conheço nenhuma assim. Mas também só podia conhecê-la Augusto Sá, o homem que ela amava, e o único ente a quem abriu sua alma. 

- Em todo o caso é um caráter inverossímil. 

- E o que há de mais inverossímil que a própria verdade? retorquiu Aurélia repetindo uma frase célebre. Sei de uma moça... Se alguém escrevesse a sua história, diriam como o senhor: "É impossível! Esta mulher nunca existiu". Entretanto eu a conheci. 

Mal pensava Aurélia que o autor de Diva teria mais tarde a honra de receber indiretamente suas confidências, e escrever também o romance de sua vida, a que ela fazia alusão. 

Nessa noite, entre as novidades do dia que deram tema à palestra, houve uma que bastante afligiu Aurélia. Corria que Eduardo Abreu estava dominado pela idéia do suicídio. Um de seus camaradas que vinha com ele de Niterói, o impedira de precipitar-se ao mar da borda da barca; outro o surpreendera com um revólver no bolso. 

No dia seguinte houve espetáculo no teatro lírico. Aurélia escreveu a Adelaide Ribeiro um bilhete oferecendo-lhe o seu camarote e prometendo-lhe sua companhia. As duas senhoras não tinham relações íntimas; apenas haviam trocado entre si as visitas de rigor depois do casamento. 

Aurélia aproveitou o pretexto da ópera nova não para estreitar essas relações cerimoniosas, mas para ter ocasião de falar com o Dr. Torquato Ribeiro. 

(continua...)

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