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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Perdeu os sentidos e quebrou a cabeça, explicou Portela. É preciso socorrê-la. Os senhores não me deram tempo para isso...

— Bem, disse o marido, isso lá com o senhor; eu nada mais tenho que ver com essa mulher.

— Sr. comendador, suplicou-lhe Portela em voz baixa; peço-lhe que não proceda contra mim, antes de ouvir-me...

— Eu nada tenho a lhe ouvir, senhor! Sei, pelos documentos em meu poder, que alguém tentou dar-me cabo da vida; não faço mais do que a defender e entregar os criminosos à justiça.

— Mas eu não quero fugir à punição da lei, explicou o rapaz, com um aspecto infeliz; desejo apenas que o senhor não me fique julgando um monstro; desejo apenas explicar-lhe as circunstâncias que me colocaram na atual situação...

— E que se adiantava com isso?...

— Adiantava-se muita coisa, para mim e para o Sr. comendador. Ao menos ficaria bem patente que eu lhe não tenho ódio e que lamento em extremo lhe haver causado tamanho desgosto...

— Mas afinal o que quer o senhor de mim?!

— Quero que me ouça a sós por alguns instantes. Tenha a bondade de afastar esses homens.

O comendador ordenou aos soldados que se retirassem para o corredor. Portela cerrou a porta do quarto em que estava Teresa, e chegando-se para junto do velho, disse-lhe com voz alterada e trêmulo:

— Minha vida está em suas mãos! O senhor vai decidir da minha sorte!

E acrescentou, tirando um revólver da gaveta da secretária:

— Estou resolvido a matar-me aqui mesmo, em sua presença, se o senhor não me conceder o seu perdão...

O comendador sacudiu os ombros, com a mais profunda indiferença.

— Do que me pode servir a vida, continuou Portela, tendo eu de representar no mundo o papel de um criminoso, de um homem mau e corrompido? Entretanto, juro-lhe comendador, que o que acaba de suceder não foi conseqüência da perversidade, nem da baixeza de sentimentos. Sei que procedi como um infame, mas sei igualmente que não podia proceder de outro modo. Na situação em que me colocou a fatalidade desta desgraça, eu não tinha outro caminho a seguir! Fui talvez mau e desumano; juro-lhe porém que não o fui por cálculo e premeditação. Para cumprir o meu destino, precisei abafar todas as vozes que me argüíam de dentro, precisei de amargar todas as lágrimas envenenadas pela consciência do crime. Quantas vezes não amaldiçoei este amor insensato, que me fazia esquecer tudo o que eu devia à sua generosidade e à sua filantropia? Oh! sofri! sofri muito! Para sua completa vingança bastava que o senhor pudesse avaliar a dor, o remorso, a vergonha, a humilhação, que me pungiam constantemente, ao lembrar-me de quanto era eu ingrato e desconhecido! Uma terrível mão de ferro empolgara-me o coração e espremia de dentro dele todo o fel das minhas negras dores. Tudo me atormentava, tudo me perseguia! Dormindo ou acordado, tinha sempre defronte dos olhos o fantasma do meu cruel segredo. Nem uma hora de repouso! nem uma hora de felicidade! Não podia encarar para o senhor, sem sofrer todos os tormentos do inferno; a sua figura, austera e veneranda, produzia-me o efeito de punhaladas no coração; o seu calmo ar de bondade, brandura do seu gênio, a franqueza do seu caráter, eram para mim um suplício constante! Pensei na morte; quis por uma vez destruir esta vida inútil e miserável, e só Deus sabe quanto me custou não poder consumar esse desejo!...

— Faltava-lhe coragem para suicidar-se, disse o comendador; mas não lhe faltava para matar-me...

— Juro-lhe que me custaria muito mais destruir a sua vida do que a minha própria!

— Nega então que tentou contra os meus dias?...

— Não, não nego. Afianço-lhe, porém, que o fazia, não por mim, mas pelos seus próprios interesses e pelo interesse de sua mulher.

— Explique-se!

— Eu não podia fugir da fascinação que Teresa exercia sobre mim, mas igualmente não queria aviltá-la, fazendo dela minha amante; como não queria que o senhor em qualquer tempo corasse defronte da adúltera. Matando-o, ela passaria a ser minha esposa legítima, e a memória do primeiro marido ficaria intacta e respeitada...

— De sorte que ainda lhe tenho de agradecer essa delicadeza?... observou o outro, com um ligeiro sorriso de ironia amarga.

— Não zombe, Sr. comendador. Juro-lhe que é sincero o que acabo de dizer; eu queria evitar a sua desonra! Entretanto, está tudo perdido; está tudo acabado! Resta-me apenas propor-lhe uma última coisa...

— Uma proposta?!...

— É verdade. Estou convencido de que o senhor não me perdoará. Pois bem! Tomarei outro expediente: mato-me no mesmo instante, e o comendador, depois de minha morte, releva minhas culpas e recolhe de novo Teresa à sua proteção. Aceita?!

E, dizendo isto, Portela engatilhou o revólver e aproximou-o da boca.

— Nunca! respondeu o comendador. Para Teresa não há perdão possível!

(continua...)

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