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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Pouco depois combinaram a primeira entrevista. Ela subiria ao sótão, logo que a casa estivesse completamente recolhida. Amâncio que a esperasse no escuro e com a porta do quarto apenas cerrada.

O rapaz não pôde ficar tranqüilo mais um instante.

As horas nunca lhe pareceram tão longas e as conversas tão intermináveis. Um sobressalto feliz perturbava-o todo, tirava-lhe o apetite e não lhe permitia um pensamento que não fosse cair aos pés de Amélia.

Por maior caiporismo, o Dr. Tavares tinha essa noite uma visita que parecia disposta a não largá-lo. Era um velho de sua província, muito falador de política, apaixonado pelas eleições, pelos conservadores, mas que, nem à mão de Deus Padre, pronunciava os rr e os ss e dizia: “Os partido liberá, os senadô”, e outras barbaridades.

— Quando se irá este cacete?...pensava Amâncio, trêmulo de impaciência.

E o Tavares a puxar pelo demônio do homem, a fazer-lhe perguntas sobre perguntas e a despejar contra ele a sua retórica inexaurível.

Até o guarda-livros que às vezes passava dias e dias sem dar uma palavra, estava essa noite disposto a falar pelos cotovelos. Ainda pilhara o chá e, repimpando na cadeira, com um brilhante a luzir num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava a respeito dos seus projetos de casamento. “Sim, que ele, havia coisas de ano e meio, estava para desposar uma linda menina e de educação esmeradíssima. Já há tempos a pedira!... Só esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze anos, lhe desse sociedade, como aliás, havia já prometido. — Ah! Toda a sua ambição era fazer família! Que vidinha melhor que a do casado?...o matrimônio era um complemento do homem...A gente enquanto moça não sentia a falta da esposa, mas depois?...quando chegasse a velhice?...Aí é que seriam elas! Não! não podia admitir um eterno celibato!...A vida do solteiro tinha seus encantos, tinha, para que negar?...os espinhos, porém, eram em maior número; se eram!...

E citava os casos.

Amâncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia esperar no quarto.

Deram onze horas. Amelinha pediu licença e também se recolheu. Mme. Brizard, à cabeceira da mesa, já bocejava, entretendo os dedos, a fazer pílulas das migalhas de pão que ficaram do chá; o marido, ao lado dela, estudava mecânica racional.

Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar o César para a cama. O guarda-livros apertou as mãos de todos e sumiu-se; o sujeito dos partido liberá , a despeito das insistências do amigo, despediu-se igualmente e, quando o advogado, que o fora acompanhar até o portão da chácara voltou à varanda, já não encontrou ninguém.

Em pouco a casa era todo silêncio e trevas. Então, Amelinha, deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as saias e galgou a escada do sótão.

Amâncio, que a esperava na porta, logo que a teve ao alcance da mão, puxou-a para dentro, e deu uma volta à fechadura.

* * *

Desde esse momento, a vida em casa de Mme Brizard tornou-se para ele uma coisa muito agradável. Ninguém mostrava desconfiar, ao menos, de suas intimidades com Amélia, que pelo seu lado parecia satisfeita com o estado de coisas.

Só uma ligeira circunstâncias covardemente o arreceava: É que a pequena não lhe exibira em quarta ou quinta edição, como dizia o Paiva, mas em comprometedoras primícias, com todos os cruentos requisitos de uma estréia.

Fugiu o primeiro mês de lua-de-mel, sem o menor eclipse. Contudo, ele agora puxava um pouco mais pela bolsa: a família estava em crise; a pensão de Nini absorvia os proventos que se obtinham do Tavares e do guarda-livros; o casarão da Rua do Resende apenas se conseguira alugar em parte; os gêneros de primeira necessidade eram mais caros em Santa Teresa.

Mas que valia tudo isso posto em confronto aos gozos que lhe proporcionava a deliciosa rapariga?

Ela parecia viver exclusivamente para lhe dar carinhos e afagos. Era como se fora sua esposa; deixava tudo de mão para só cuidar do amante. — Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena lhe fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d’água, penteava-lhe os cabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que dava, por onde estivera, com quem falara e o dinheiro que gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras, lia-lhe as cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas.

Amâncio sorria de tais ciúmes, com o ar seguro de quem desfruta em paz uma felicidade legítima e abençoada por todos. Já não furtava beijinhos assustados por detrás das portas; não roçavam os joelhos por debaixo da mesa, e não se serviam das mãos como instrumentos de amor; guardavam-se para as liberdades da noite, para a independência do quarto. Na ocasião, porém, em que ele saia para as aulas ou à noite para o passeio, beijocavam-se, sempre, como dois bons casados.

(continua...)

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