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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

O senhor Rodrigo Otávio deve saber que a mulher é mais ou menos equivalente ao louco, ao menor, ao interdito. Está sempre debaixo de tutela e proteção de quem ela carece irremediavelmente. Quando se promulgou a Constituição de 24 de fevereiro, foi com esse espírito que se disse que os cargos públicos eram acessíveis a todos os brasileiros: mas “brasileiros” aí são homens, conforme o espírito da época.

Tenho documentos de que sempre assim pensou o governo da república, durante cerca de vinte e tantos anos.

Não quero esconder todo o meu leite. Era ministro da Fazenda, o inesquecível Joaquim Murtinho e uma moça requereu inscrever-se em concurso, para um lugar de Fazenda. Ele negou, baseado num parecer da Diretoria do Contencioso.

Como este caso, tenho em meu poder informações de mais outros relatórios. Não me move nenhum ódio às mulheres, mesmo porque não tenho fome de carne branca; mas o que quero é que essa coisa de emancipação da mulher se faça claramente, após um debate livre, e não clandestinamente, por meio de pareceres de consultores e auditores, acompanhados com os berreiros de da. Berta e os escândalos de da. Daltro.

E preciso que isso se faça claramente, às escâncaras. Cada um, então, que dê sua opinião.

Um outro tópico dos dois a que me referi mais acima, é aquele em que o doutor Otávio cita um alvará do Regente d. João, “fazendo mercê” de uma escrivania a uma senhora. E engraçado que o doutor Rodrigo não veja a diferença do regime que existia naquele tempo e o de que nos oprime hoje.

Um cargo público era propriedade do rei. Ele os podia dar e vender. Hoje, porém, não é assim. Está na Constituição que eles são acessíveis a todos os brasileiros, mediante as condições que a lei estatuir.

D. João VI podia dar um lugar de juiz a um macaco; mas o doutor Epitácio Pessoa, não. Podia ser feminista, sem congresso. Aí é que está o “busílís”. A.B.C., Rio, 12-8-1922.

O NOSSO ESPORTE

Quem abre qualquer um dos nossos jornais, principalmente nestes dias de centenário festejados faustosamente em meio da maior miséria, há de concluir que este nosso Rio de Janeiro não é o paraíso do jogo do bicho, a retorta monstruosa da politicagem, a terra dos despautérios municipais e de poetas.

Concluirá que é um imenso campo de football. Senão, vejam; os quotidianos ocupam urna ou duas colunas, em semana, com política, um cantinho com coisas de letras, algum pouco mais com as patacoadas do nosso teatro, quase nada com artes plásticas, tudo o mais de suas edições diárias, isto é, a quase totalidade da folha, enchese com assassinatos, anúncios e football.

De resto, as gazetas têm razão. Vão ao encontro do gosto do público, seguem-no e, por sua vez, excitam-no. Toda a gente, hoje, nesta boa terra carioca, se não fica com os pés ferrados, ao menos com a cabeça cheia de chumbo, joga o tal sport ou esporte bretão, como eles lá dizem. Não há rico nem pobre, nem velho nem moço, nem branco nem preto, nem moleque nem almofadinha que não pertença virtualmente pelo menos, a um club destinado a aperfeiçoar os homens na arte de servir-se dos pés.

Até bem pouco, essa habilidade era apanágio de outra espécie animal; hoje, porém, os humanos disputam entre si o primado nela. Deixo a explicação desse fenômeno à inteligência e sagacidade dos sociólogos de profissão. O que verifico é que toda a nossa população anda apaixonada pela eurritmia dos pontapés e os poderes públicos protegem generosamente as associações que a cultivam.

Abram o Diário Oficial, lá verão, no orçamento e fora dele, as autorizações inúmeras ao governo para auxiliar com subvenções de cem, duzentos e mais contos, tais e quais ligas de “desportos”, como eles, os sportmen, dizem, na sua comichão de vernaculismo.

As mais das vezes, essas subvenções ficam no caminho; mas, nem por isso, o congresso deixa de auxiliar o desenvolvimento físico dos nacionais do país.

Diabo! Uma alimentação sadia, uma habitação higiênica, um bom clima agem tão eficazmente sobre o nosso organismo como umas marradas ou uns pontapés dominicais, debaixo de um Sol ardente – não acham? E o dinheiro, dado para isto é mais empregado naquilo – penso eu.

A proteção dispensada ao football não se limita à que lhe dá o congresso. O Conselho Municipal vai além, porque o conselho, como toda a gente sabe, é composto do que há de mais fidalgo de sangue na nossa sociedade; e é próprio de fidalgos, tanto da Inglaterra como de Madagascar, amar toda a espécie de esporte, desde a escalada ao topo do “pau de sebo”, em cuja ponta há uma grande pelega , até os raids de aeroplanos.

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