Por Aluísio Azevedo (1882)
— Oh! exclamou Portela, vendo Teresa entrar esbaforida e atirar-se sobre a primeira cadeira. Tu aqui?! Que significa isto?!
Ela não podia responder logo; vinha ofegante. O caixeiro empalideceu.
— Tudo perdido! disse afinal a desgraçada entre dois arquejos.
— Hein?! Como?! perguntou o miserável, sem poder ordenar suas idéias.
Perdido?! Explica-te!
— Meu marido sabe de tudo!
— E a tua carta então?
— Foi escrita por ele...
— E a minha resposta?!
— Não sei...
— Jesus! exclamou Portela, segurando a cabeça com ambas as mãos.
— Eu disparatei com ele! acrescentou Teresa, respirando com dificuldade. O Jacó, escondido aqui, ouvira toda a nossa conversa àquela tarde em que combinávamos dar cabo da peste! Meu marido quis obrigar-me a escrever-te uma carta e eu não consenti...
— Mas por que não me preveniste, criatura?!
— Não pude. Ele prendeu-me no quarto. Só agora consegui sair, arrombando uma porta. Não volto mais ali, nem à ponta de espada!
— Ora esta!... exclamou o rapaz, atirando-se no sofá e escondendo a cabeça nas palmas das mãos.
Ouvia-se Teresa resfolegar de tão cansada que estava.
— E agora?!... disse afinal Portela, descobrindo o rosto.
— Agora é que estou resolvida a sujeitar-me a tudo... Fico contigo! respondeu a mulher do comendador.
— E impossível, filha! sentenciou o perverso, erguendo-se e pondo-se a passear em todo o comprimento da sala.
— Hem?! interrogou ela, fazendo-se lívida.
— Eu te preveni! Só casado podia tomar conta de ti!...
Teresa ergueu-se; deu dois passos para a frente.
— Tu és um canalha! gritou com a voz arrastada, e deixou-se cair sem sentidos.
Portela correu a suspendê-la do chão. A infeliz havia batido com a cabeça contra um móvel, fazendo uma pequena brecha no crânio, donde corria sangue.
— Com todos os diabos! praguejou o caixeiro, sentindo-se entalar cada vez mais pela situação. E eu que nunca me vi nestes apuros!... Ó seu Antônio!! seu Antônio! principiou ele a gritar.
Antônio era um sujeito da vizinhança, que se encarregava de fazer-lhe a limpeza da casa. Ninguém respondeu.
— Isto não é para pôr um homem doido?! exclamou Portela, no auge da perplexidade.
Rebentaram então duas palmas na porta.
— Quem é?! perguntou ele.
— Da parte da justiça! bradou de fora uma voz.
Portela estremeceu.
— Abra!
— Já vai! respondeu o caixeiro, arrastando Teresa para a alcova.
O sangue, que escorria da cabeça desta, desenhava no chão arabescos vermelhos.
— Abra! insistiu a voz, fazendo-se desta vez acompanhar por duas fortes pancadas na porta. Portela abriu finalmente, e deu de cara com um homem magro e alto, vestido de negro até ao pescoço.
— O senhor é Luiz Portela? perguntou o recém-chegado. — Como?...
O homem fez um gesto de impaciência e repetiu a pergunta.
— Que deseja dele? indagou o caixeiro, sem conseguir disfarçar a sua perturbação.
— Venho intimá-lo a comparecer em presença do chefe de polícia.
— Para quê?...
— Saberá depois.
— Eu agora não posso ir! Estou muito ocupado...
O oficial de justiça afastou-se um pouco da porta, fez um sinal para fora, e apareceu então o comendador, acompanhado de duas praças.
— É este o homem? perguntou aquele ao comendador.
— Justamente, disse o velho, que havia entrado na sala e olhava atentamente para as manchas de sangue no soalho.
— Guardem esse homem à vista! ordenou o oficial aos dois soldados, franqueando-lhes a entrada. Um destes foi defender as janelas, e o outro se conservou de vigia à porta da sala.
— Naquele quarto está alguém, que acaba talvez de ser ferido neste instante! disse o comendador, apontando para a alcova. Este sangue ainda não coagulou. E dizendo isto investiu para o quarto onde Portela escondera a amante.
— O senhor não pode entrar aqui! opôs o dono da casa, atravessando-se na porta da alcova.
— Ali dentro está talvez o corpo do delito de algum novo crime!
— Vejamos! disse o homem da justiça. Creio que não será preciso empregar a força, acrescentou ele, desviando Portela.
— Pois entrem, respondeu este; mas peço-lhes que me deixem ao menos explicar a razão por que esta senhora se acha aqui neste estado.
— Descanse que terá ocasião oportuna de explicar tudo. A mim não compete sindicar de semelhante coisa.
E dizendo isto, o oficial de justiça principiou a tomar notas.
O comendador havia parado perto da cama em que estava Teresa, e olhava para a desfalecida com um frio olhar de ódio.
— Conhece esta senhora? perguntou-lhe aquele.
— É minha mulher, respondeu secamente o comendador.
— Ah!... disse o outro, mostrando certa solicitude. Que tem ela?...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.