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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Colheu logo uma rosa e, por suas próprias mãos enfiou-a na gola do fraque de Amâncio.

Em seguida atravessaram a hora.

Canteiros grandes, cobertos de verdura, saturavam o ar de um cheiro de hortaliças. As alfaces brilhavam ao sol dourado de julho. Mais para adiante havia um sombrejar melancólico e deliciosos de árvores grandes; era a chácara; viam-se no ar as folhas largas e recortadas da fruta-pão faiscarem, como lâminas de metal brunido; ao passo que as bojudas mangueiras se debruçavam sobre a terra numa concentração pesada de sono.

Os dois prosseguiram de braço dado por entre o murmurejar tristonho daquelas sombras. E lentamente, e sem trocarem uma palavra, se deixaram ir até a espalda de um morro, que servia de limite à chácara.

Havia um grosseiro banco de pau meio escondido entre bambus e trepadeira. Assentaram-se. Um fio de água corria da montanha e os passarinhos remigiavam trilando na mole embalsamada das estevas.

Amâncio passou um braço na cintura de Lúcia e chamou-lhe o corpo para junto do seu. Ela deixou-se arrebatar, bambeando a cabeça, num encontro apaixonado de lábios.

O rapaz parecia louco no seu desejo.

— Não! Isso não! dizia a outra. — Mostra que é um homem de espírito! Não se queira confundir com esses materialões que há por aí!

Ele opunha as razões que lhe vinham à cabeça para justificar os seus rogos: “Lúcia que não quisesse desvirtuar o amor, o verdadeiro amor, fazendo de um sentimento real e fecundo uma pieguice romântica e desenxabida”. Lembrou-lhe o que ela própria dissera, quando pela primeira vez estiveram juntos.

E, num esfolegar febril e ruidoso, suplicava-lhe um pouco de compaixão, ao menos; que não o torturasse daquele modo; que não o obrigasse a sucumbir ao desespero de sua paixão!

Lúcia não entendeu. — Ele que deixasse a casa de Mme. Brizard e viesse tomar um cômodo ali na Tijuca. Assim ... bem! Mas, naquele momento e naquelas circunstâncias... Não! não! e não!

Apesar de enérgica recusa, Amâncio insistia sempre.

— Não seja teimoso, repreendeu ela, arrancando-lhe as saias da mão.— Oh! ele, porem, não se desenganava e até já recorria à violência.

— Pior! Disse a mulher, notando que o estudante lhe desgrenhava os cabelos e machucava-lhe as roupas. — Já não vou gostando muito da brincadeira!

E, a um movimento desabrido do rapaz:

— Ora pílulas! Isso agora também já é estupidez!

Amâncio ao lado bufava, imóvel, emitindo sobre ela olhares de cólera.

— O senhor faz-se desentendido! Exclamou Lúcia, afinal, endireitando o penteado e armando as lunetas. — Há muito devia compreender que nada alcançará de mim, enquanto eu estiver com meu marido!

— Marido o quê! Desmentiu o provinciano, com a voz sufocada. —Tão marido como eu!

Lúcia olhou para ele, apertando os olhos.

— É isso! Sustentou aquele. — Sei de tudo! A senhora quer fazer de mim um tolo, pois fique sabendo que não faz! Trate de arranjar outro, porque comigo perde o seu tempo!

Ela o mediu de alto a baixo, levantou desdenhosamente o lábio superior, e afastou-se com um grande ar emproado e senhoril, murmurando entredentes.

— Ordinário!

Amâncio calcou o chapéu sobre os olhos, e, de cabeça baixa e passos lentos, retomou pelo caminho andando, a fustigar com a bengala as ervínculas da estrada.

Saiu pelo portão da chácara.

Já na rua, sacudia os ombros e disse a meia voz:

— Que a leve o diabo!

CAPÍTULO XV

O rapaz acordou muito bem disposto no outro dia, estava, ou pelo menos parecia, restabelecido completamente. Os ares tonificantes da Santa Teresa produziram-lhe efeitos miraculosos.

— Até que enfim podia mandar ao diabo os xaropes e as tisanas que, de tempos a essa parte, lhe melancolizavam a vida e relaxavam o estômago. E, ainda, metido entre os lençóis, na matinal preguiça das sete e meia, dispunha-se a filosofar sobre o ridículo episódio da véspera, quando um leve rumor na porta do quarto lhe desviou o curso das idéias. Era a menina que trazia o café.

Viu-lhe a pálida mãozinha medrosamente surdir por entre a fisga da porta mal cerrada, para depor no chão, como era de costume, a chávena de porcelana. Amâncio. porém, desta vez saltou da cama e, correndo da gatinhas, a empolgou nas suas.

A mãozinha quis fugir, ele não consentiu, e com ela veio um braço que as folhas da porta arremangavam.

Começou a beijá-lo sofregamente, desde a ponta dos dedos até os bíceps; enquanto Amélia, sempre escondida ia consentindo, toda ela arrepiada em cócegas.

— Um beijinho...pediu ele mostrando o rosto.

— Logo!

— Com certeza?... — Com certeza!

E a pequena desapareceu muito ligeira, — tique, tique, tique, pela escada.

(continua...)

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