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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Com esse movimento sua espádua tocou no ombro de Seixas e os cachos de cabelos castanhos, agitados pelo movimento do carro, afagaram a face do mancebo desprendendo perfumes de inebriar. De momento a momento, a claridade do gás entrava pela portinhola do carro, em frente ao lampião, e debuxava o mavioso semblante de Aurélia e seu colo, que a manta escorregando, tinha descoberto. 

Na posição em que estava, olhando por cima da espádua da moça, ele via na sombra transparente, quando o decote do vestido sublevava-se com o movimento da respiração, as linhas harmoniosas desse colo soberbo que apojavam-se em contornos voluptuosos.

- Como brilha aquela estrela! disse a moça. 

- Qual? perguntou Seixas inclinando-se para olhar. 

- Ali por cima do muro, não vê? 

Seixas só via a ela. Acenou com a cabeça que não. 

Aurélia distraidamente travou da mão do marido, e apontou-lhe a direção da estrela. 

- É verdade! respondeu Fernando que vira uma estrela qualquer. 

Retirando a mão Aurélia descansou-a no joelho, não advertindo sem dúvida que ainda tinha presa a do marido. 

- Não sei que tem o luzir das estrelas!... murmurou a moça. É uma coisa que notei desde menina. Sempre que fico assim a olhar para elas e a beber os seus raios sinto uma vertigem, que me dá sono. Quem sabe se a luz que elas cintilam, não embriaga? Parece-me que bebi um cálice de champanha, mas feito do sumo daqueles cachos dourados que lá estão no céu. 

Estas palavras, o olhar de Aurélia dirigiu-as ao marido envoltas em um sorriso feiticeiro. 

- Então foi de ambrósia, que é a bebida dos deuses, tornou Fernando correspondendo ao gracejo. 

- Mas, fora de graça? Que sono me fez! Será cansaço? 

- Talvez! Dançou tanto! 

- Pois reparou? 

- Que queria que eu fizesse? 

Aurélia esperou um momento para não interromper o marido; vendo que este calavase, conchegou-se com o gracioso movimento dos passarinhos quando se arrufam para dormir. 

- Não posso mais! Estou tonta! 

Derreou-se então para a almofada; a pouco e pouco, descaindo-lhe ao balanço do carro o corpo lânguido de sono, sua cabeça foi repousar no braço do marido; e seu hálito perfumado banhava as faces de Seixas, que sentia a doce impressão daquele talhe sedutor. 

Era como se respirasse e haurisse a sua beleza. 

Fernando não sabia que fizesse. Às vezes queria esquecer tudo, só para lembrar-se que era marido dessa mulher e a tinha nos braços. 

Mas quando queria ousar, um frio mortal trespassava-lhe o coração, e ele ficava inerte, e tinha medo de si. 

Todavia, ninguém sabe o que aconteceria se o carro não parasse tão depressa à porta da casa; Aurélia sobressaltou-se; caindo em si, retraiu-se para deixar que Seixas saltasse e lhe oferecesse a mão. 

- Nunca me senti tão fatigada! Creio que estou doente, disse ela descendo do carro. 

- Não devia ter ficado até tão tarde! observou Fernando com solicitude. 

- Dê-me seu braço! murmurou a moça com um gesto abatido. 

Seixas começou a inquietar-se, ainda mais quando a viu suspensa a seu braço, arrastar-se para a escada. 

- Está realmente incomodada? 

- Estou doente, muito doente! respondeu com a voz alquebrada. 

Nos olhos porém e nas covinhas da boca, cintilou um raio de malícia que desmentia aquelas palavras. 

Seixas retribuiu o gracejo. 

- É uma enfermidade muito grave, não é? Que ataca-lhe todas as noites e a deixa sem  sentidos por muitas horas? Chama-se sono. 

- Não sei; nunca a tive, volveu a moça abaixando as pálpebras e velando os lindos olhos. 

Chegados à saleta, onde costumavam despedir-se, Aurélia dirigiu-se para o toucador. 

Na porta, Fernando parou. 

- Leve-me que eu não posso comigo, disse Aurélia atraindo-o a si brandamente. 

O marido levou-a ao divã onde ela deixou-se cair prostrada de fadiga ou de sono. Não tendo soltado logo o braço de Seixas, este reclinou-se para acompanhar-lhe o movimento, e achou-se debruçado para ela. 

(continua...)

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