Por Lima Barreto (1921)
O senhor Jacinto a quem acabo de chamar excelentíssimo, agora vou tratá-lo de você e de amigo. Dei-me licença, para tal. Você é um “bicho” nesta terra. Buarque de Macedo foi ministro de Estado e morreu com dois mil-réis no bolso.
Pedro II foi imperador e andou sempre apertado. José do Patrocínio328 fez a abolição e acabou na miséria. Não é preciso juntar mais exemplos de grandes homens, nacionais e estrangeiros, que morreram sem níquel. Entretanto você, meu caro amigo Jacinto, com a simples habilidade de calígrafo, em um instante, ganha quinhentos contos.
Tenho uma grande inveja de você. Se eu soubesse dessas coisas, não aprendia uma porção de coisas que aprendi bem ou mal.
Sabe você o que aprendia eu, meu caro Jacinto? Aprendia a não falsificar. Mas isto não está nos compêndios da moral em que nos amolam o cérebro em menino. Está na vida que eu não soube viver: quando devia adquirir semelhante sabedoria.
Você – continuo a afirmar – é um bicho; e pode-se gabar que está influindo nos destinos da pátria.
Quando é que você e o tal Oldemar pensariam que a marcha e os destinos da república estivessem debaixo de uma Mallet manejada pelas mãos de vocês? O mundo dá muitas voltas e... a República dos Estados Unidos do Brasil é muito engraçada.
Do seu etc. – Lima Barreto.
Careta, Rio, 8-7-1922.
TRANSATLANTISMO
Nós, os brasileiros, somos como Robinsons : estamos sempre à espera do navio que nos venha buscar da ilha que um naufrágio nos atirou.
Toda a nossa ânsia está em ir para a Europa de qualquer forma, como diz Altino Arantes , Bermudes ou Vertenza.
Daí a nossa mania de viagens e sonhar com Nice e outros lugarejos mais feios do que o Canto do Rio.
Nunca, na verdade digo, viajei; mas desejava muito viajar, por isso tenho grande inveja do Teo Filho que leva a viajar toda a hora e a todo o instante.
Este Teo, sem vintém no bolso, leva daqui para Paris e de Paris para aqui.
Não sei como ele consegue isto, pela razão muito simples que, às vezes, me vejo em sérias dificuldades para descer de Todos os Santos até o Campo de Santana.
Teo não tem dessas angústias. Embarca num paquete e vai até à França. Nesse país, passa anos e escreve excelentes livros de viagem, como o 365 dias de Boulevard e agora, Uma viagem movimentada.
Neste último trabalho do autor de Mme Bifteck-Paff, ele demonstra as qualidades de escritor nervoso, rápido e intensivo.
Ele descreve com vigor o passadio a bordo de navio brasileiro, em que a desordem nacional é manifesta e represantiva. Não há o rigor britânico dos paquetes, nem a hipocrisia falsamente albiônica dos navios do Laje.
Nele, no navio em que viajou, o Avaré, que há pouco se afundou, no porto de Hamburgo, as coisas se passam como no Apostolado Positivista.
Tudo é às claras. É virtude e é um defeito; mas é verdade.
É um bem sempre ser viajado.
Careta, Rio, 8-7-1922.
O NOSSO FEMINISMO
É curioso observar como aqui se procede em relação aos problemas máximos das relações sociais. Questões que interessam os altos destinos, não só da Nação, mas da própria Humanidade, são resolvidos escuramente nos gabinetes de obsoletos “consultores” cuja mentalidade, se não é guiada pelo interesse, as mais das vezes o é pelo esnobismo de parecerem modernos.
É premido por semelhante bobagem, a qual, com a sua falta de real personalidade, domina-lhes a inteligência; é premido por isso, dizia, que eles se aventuram a afirmar os maiores absurdos, os maiores contra-sensos, para não dizer outra coisa.
Ainda agora o senhor Rodrigo Otávio , que ocupa o lugar rendoso de consultor geral da república, cuja notoriedade vem de ter sido amigo de Raul Pompéia a contar, com detalhes escatológicos, como Pedro I proclamou a Independência; pois ainda agora esse senhor Rodrigo Otávio dá um parecer muito curioso sobre o direito que têm as mulheres de exercer cargos públicos.
Não se tratava bem de cargos públicos; e eu não faço a injustiça de dizer que sua senhoria não sabe que escrevente de cartório não é cargo, não é funcionário público, é simplesmente um serventuário; é alguma coisa como um servente de secretaria que sabe escrever.
Deixemos, porém, isto e continuemos a analisar o seu parecer. Há dois tópicos interessantes. Um é aquele em que se refere ao Código Civil, que, no art. 247, prescreve que “considerar-se-á sempre autorizada pelo marido a mulher que ocupar cargo públicos.”
Que jurista é esse senhor Rodrigo Otávio! Pois ele não sabe que desde muito as nossas leis permitiram o exercício de certos empregos públicos a mulheres, nos telégrafos, nos correios e no magistério?
Isto era autorizado por lei ou regulamento com força de lei; mas meter meninas no Ministério do Exterior, no da Viação, etc., ainda não houve uma lei que tal autorizasse.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.