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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— O senhor faz-me perder a paciência! respondeu Teresa com tédio. A que vem agora semelhante pergunta?! Está bem claro que o amor é indispensável para a vida da mulher e que sem ele não encontramos encanto em coisa alguma; mas a nossa vida compõe-se de duas partes: a privada e a exterior; nascem ambas à porta de nossa casa, uma, porém, se estende para dentro e a outra para fora. A primeira, com efeito, baseia a sua felicidade essencialmente no amor, mas a segunda precisa de outros alicerces; sem as considerações sociais, sem a estima de umas tantas pessoas, sem o concurso de umas tantas coisas, não poderá esta última existir e nem terá razão de ser. Não se confundem as duas, é verdade, mas auxiliam-se mutuamente. Uma é o complemento da outra. Se a vida exterior nos fatiga, a privada nos retempera; e vice-versa. De sorte que, por maior felicidade íntima de que possamos gozar, esta nunca produzirá o seu verdadeiro efeito, se não a pudermos constatar de vez em quando com as regalias do meio exterior; da mesma forma se converterá este em puro martírio e aborrecimento se, ao sair dele, não encontrarmos em casa o consolo tépido de um amor legítimo e duradouro.

E Teresa, recuperando inteiramente o sangue frio, acrescentou ainda, como se conversasse com um estranho:

— Vê o senhor, por conseguinte, pelos meus raciocínios e por esta calma, que, antes de sucumbir, calculei bem o alcance da minha queda. Sabia eu de antemão tudo o que ia perder e tudo o que tinha de afrontar; e, tão grande reconheci meu sacrifício, que desdenhei compadecer-me de mais ninguém que não fosse eu própria. Incontestavelmente, meu caro, quem mais perde e quem mais sofre em tudo isto, não é decerto, o senhor;,.. o senhor continuará a ser: "O Sr. comendador

Ferreira" e eu irei ser: "Uma mulher de reputação suspeita..." — Queixe-se de si própria, disse o comendador.

— Não! não é de mim que me tenho de queixar; é do senhor, que nunca devia ter sido meu marido; é de meus pais, que consentiram neste casamento imoral e disparatado; é da sociedade, que não sabe fazer justiça a ninguém; e é, finalmente, das leis que não nos facultam o direito de desfazer-nos licitamente de um marido, quando este nos sai errado e se torna incompatível conosco!

O comendador ia replicar, mas foram ambos interrompidos pelo velho Jacó, que voltava com o resultado da sua delicada missão contra o Portela.

CAPÍTULO XXIII

PORTELA EM APUROS

Portela saía do escritório para almoçar, quando lhe entregaram a carta, principiada por Teresa e terminada pelo comendador. Sorriu ao recebê-la; já contava com aquilo. Teresa, estava segura, havia de sacrificar tudo por amor dele.

E, na sua presunção de homem sagaz, sentia-se lisonjeado pelo bom êxito daqueles planos. Foi com um riso vitorioso que ele abriu a carta e leu o seguinte:

"Meu caro Luiz.

Estou por tudo o que desejas. Manda o frasquinho pelo portador e escreveme como hei de ao certo ministrar as doses a meu marido. Hoje mesmo podemos principiar a obra. — Tua Teresa."

— Venha comigo, disse Luiz ao portador da carta, logo que terminou a leitura e, sem mais pensar no almoço, tomou a direção da casinha em que morava.

Ia muito agitado com as palavras da amante.

— Agora sim! considerava ele pelo caminho; tudo se vai transformar em torno da minha vontade! O comendador daqui a dois meses já não existirá... Algum tempo depois estarei amarrado à viúva e entrando na fortuna do defunto!

E o velhaco, sacudido por estas idéias, sonhava-se já em todas as regalias do dinheiro. Via-se rico, cercado de adulações, no meio da opulência de um bom palacete; imaginava a cor da libré dos seus lacaios, o feitio do seu cupê, a estampa dos seus cavalos. Sentia-se já estendido nos custosos divãs de damasco, a olhar para os quadros e para os ricos espelhos do seu salão. Via-se em viagem para a Europa; imaginava-se em Paris, a passear nos bulevares o seu vigoroso tipo meridional.

E Portela, sem parar na rua, sentia despejar-se-lhe no coração uma abundante cornucópia de deslumbramentos e de prazeres de todos os gêneros, cujos vapores lhe subiam à cabeça como uma vaga sufocadora, tomando-lhe a respiração e produzindo-lhe um princípio de vertigem. Carruagens, dançarinas, bailes, espetáculos, cavalos, baixelas de prata, diamantes, crachás, banquetes, brindes, todo o bric-à-brac da sua ambição e da sua fantasia, lhe dançava confusamente dentro do cérebro. Em torno do seu delírio passavam as sombras dos transeuntes. Tudo lhe parecia pequeno, miserável, ao lado dos seus futuros esplendores. Olhava com desdém para os vultos que se cruzavam pela rua, e a sua fisionomia armava já insensivelmente o ar superior dos ricos fartos e aborrecidos:.

Ao entrar em casa, acompanhado pelo portador da carta, atirou-se a uma cadeira.

— Espera um pouco, disse ao outro, procurando acalmar-se; e foi à alcova, encheu um cálice de conhaque e bebeu. Depois assentou-se à secretária e escreveu o seguinte:

"Teresinha.

Aí vai o frasco. Uma gota por dia é o bastante. No caso que chamem o médico, procura evitar que ele veja e analise qualquer líquido já preparado por ti.

Ânimo! Lembra-te da felicidade que nos espera. — Teu Luiz."

— Pronto! exclamou, fechando a carta. E passou-a juntamente com o frasco, ao sujeito que estava à espera, entregando-se ele de novo aos seus sonhos de ambição, logo que o portador saiu.

Apesar da grande sobreexcitação em que se achava, uma idéia fria atravessou-lhe o espírito. Era a leviana facilidade com que entregara àquele homem desconhecido o veneno e a resposta à carta de Teresa.

— Ora! não haverá novidade! disse, levantando-se, disposto a ir almoçar.

Mal porém tinha chegado à porta, quando foi surpreendido pelo barulho de passos apressados no corredor.

(continua...)

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