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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Amâncio riu. Sentia-se feliz; aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento, os cálices de xerez, as palavras degotadas do Rocha; tudo isso lhe picava o espírito com uma pontinha de alegria devassa. Seus gostos, suas tendências luxuriosas, volviam-lhe em revoada, como pássaro de arribação. Ficou expansivo, disposto aos desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se passara com ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras de Amelinha com sua pessoa, os pequenos cuidados amorosos, as pequeninas frases significativas; narrou minuciosamente as cenas com Lúcia e disse que, ao sair do café, iria visitá-la à Tijuca.

— Está claro! Trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca do chão de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os pés cruzados. — Eu, no teu caso, já teria desforrado melhor os cobres!

— Achas então que eu devo?...

— Ora, filho, é o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes temos conversado! Eu cá só acredito numa castidade — a da velhice!... tirando daí... e concluiu a sua idéia com um gesto feio.

Amâncio já recorria à moléstia para justificar aos olhos do amigo a atitude respeitosa que ocupara ao lado de Amélia — o colega que não o julgasse um tolo!... Mas que diabo havia ele de fazer, tolhido de dores, como estava, numa cama?...

Quando se despediram, o Paiva deu a entender que precisava de dinheiro; mas Amâncio negou-o, apesar de bem provido, dizendo com voz triste que “sentia muito não poder servir naquela ocasião”.

O outro, sem mais querer ouvir coisa alguma, retirou-se logo.

* * *

Amâncio, assim que se viu livre, correu a tomar um tílburi e bateu para a casa de pensão, onde estava Lúcia.

Era um palacete, com magnífica aparência. Janelas de sacada, grande corredor ladrilhado de mármore e velhas escadarias encentradas de tapete de oleado, preso a cada degrau por um fio de metal amarelo.

Foi recebido cerimoniosamente no salão por uma mulheraça muito gorda, de luneta, extremamente degotada, mostrando entre as almofadas do peito ramificações de veiazinhas escarlates, que pareciam miniaturas de árvores secas desenhadas a bico de pena. Em um dos braços luzia-lhe uma jóia e, por debaixo do vestido de cambraia, aparecia-lhe o pé quase redondo e empantufado de veludo azul.

Tinha a voz grossa, cheia de uu, e o lóbulo do queixo coberto de penugem negra.

Ai saber que Amâncio não ia com a intenção de tomar algum cômodo, mas sim para falar com Lúcia, retirou-se sacudindo os rins; e da sala o estudante lhe ouviu gritar ao criado “que fosse prevenir à senhora do Sr. Pereira de que aí estava um cavalheiro que lhe desejava falar”.

Lúcia mostrou-se no fim de meia hora, a pedir mil perdões por se haver demorado mais um pouco. Fizera toilette especial para recebê-lo e parecia muito lisonjeada com a visita.

Declarou, logo, que o achava mais gordo, de melhor fisionomia.— Abençoada moléstia, a dele!

E, em resposta ao que o rapaz lhe perguntava sobre aquela nova residência, elogiou muito a casa, o serviço. “Sempre era outra coisa! Nem havia termo de comparação entre esta e a de Mme. Brizard!”

Amâncio voltou-se todo na cadeira, considerando a sala. Uma rica sala, apesar de velha, — grande , espelhada, cortinas de ramagem, consolos cobertos de jarras com flores artificiais de pena. A um dos cantos um piano antigo e no centro do teto de estuque, no lugar donde espipava o lustre, um grande escudo de cores, rebentando em cabecinhas de anjos.

Falaram logo sobre as novidades da casa de pensão do Coqueiro: a saída dos hóspedes, a morte do tísico, a mudança para Santa Teresa.

— Você ali está seguro!... disse Lúcia.

O estudante protestou com um gesto, em que já havia alguma coisa das revelações que pouco antes lhe fizera o Paiva Rocha.

E, discutindo os amores de Amelinha, foram pouco e pouco empurrando a conversa para o verdadeiro motivo da visita, até que Amâncio conseguiu tratar de si, das suas saudades do quanto desejava Lúcia, do quanto sofria por causa daquela ingrata que ali estava!

— Mais baixo! Olha que te podem ouvir!... ele então chegou-se mais para a ilustrada senhora, tomando-lhe as mãos que cobria de beijos, e, no seu ardor, com a voz abafada, os olhos acendidos, procurava arrancar-lhe uma resposta definitiva, uma palavra qualquer que o restituísse por uma vez à tranqüilidade.

— Está quieto! Respondeu a tirana. — Está quieto!

E, vendo que o demônio não a escutava, em risco de comprometê-la aos olhos de quem por acaso entrasse na sala, propôs mostrar-lhe a chácara enquanto esperavam pelo jantar. — Que ela já o não deixava sair sem ter jantado!...

Havia duas descidas; uma pelo corredor e outra pela varanda. Tomaram por resta.

Lúcia, muito disfarçada, ia-lhe apontando os cômodos e as benfeitorias da casa, com tanto empenho e gosto como se fora mesma a proprietária; mostrou-lhe o banheiro, os tanques para a lavagem de roupa, o coradouro, o cercado das galinhas e por último o jardim.

(continua...)

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