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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Depois, o que é, quando se trata de eleger num país de paz? Um “carnaval” com todos esses senhores austeros de tribunais e juizes, de constitucionalistas e jornalistas eminentes, pondo a máscara da Constituição abaixo e colocando aquela que lhes vai bem, de difamar, de infamar, de espionar e de falsificar.

Levam um tempo enorme representando o que não lhes é natural, para depois, durante a farra da campanha eleitoral, pôr nas faces as suas verdadeiras máscaras de almas sem sinceridade, sem pudor, que não trepidam em empregar os mais torpes processos de compressão, corrupção, ameaça, para arranjar um lugar de guarda de armazém, de embaixador ou de camareiro com o vencedor ou os seus prepostos.

Durante as momices eleitorais, trocam os tratos mais sórdidos, batalham-se com seringas de líquidos imundos, embriagam-se de injúrias: e as suas próprias mulheres, amantes, filhas e irmãs correm seminuas pelas reuniões públicas, com a pele mosqueada aos ombros, a gritar: “Evoé, Baco!

Que é que elas querem? Que os seus maridos, amantes, pais e irmãos arranjem alguma “coisa boa” com o que for eleito.

Chega a quarta-feira de cinzas, dia de eleição, lá vão os homens, e, bem cedo, as mulheres, para o “colégio”.

Vão contritos, compungidos, a pensar se aquele sacrifício todo de pudor, de honestidade e de dignidade valeu a pena.

Memento homo...

Sai o resultado; é uma decepção para muitos: o seu candidato foi completamente derrotado.

Pensam logo em outras manobras fraudulentas, para ver se “o põem” lá em cima. Agora, porém, não é mais um carnaval: é uma plácida “Quaresma” de contagem de votos e argumentação de leis eleitorais.

Não há esgares, nem trejeitos, mas atitudes blandiciosas e lagrimosas de advogado de júri. É a “apuração”. Chega afinal o “reconhecimento”; é a Semana Santa, a que não faltam a procissão de enterro e o sermão de lágrimas. Chega a Aleluia; e os que sobem aos céus, repicam garrafas de champagne e mesmo os cálices de parati. Os outros, porém, se preparam para o novo carnaval eleitoral, etc., etc.

E assim a política: um carnaval, precedido de coisa séria e que devia ser sucedido por outras sérias; mas... toda gente sabe bem o que elas sejam.

A coincidência de datas desta psicologia da política brasileira!

Nem sempre se medita à toa sobre as datas das folhinhas de desfolhar e almanaques, quaisquer...

Careta, Rio, 4-3-1922.

PAULINO E O “MAFUÁ”

– Você não sabe, Segadas, este negócio de “mafuá” é um flagelo.

– Como? E uma coisa religiosa, abençoada pela igreja...

– Eu conto a você. Moro em Todos os Santos, há muitos anos. Naturalmente todos nós, os da minha família, terão conhecimentos e relações. Damo-nos e trocamos

favores. Até aí está muito direito, porque isso é cristão e humano. Há meses minha irmã recolheu à nossa casa um pequeno muito pobre e humilde. Embora seja eu nominalmente chefe da casa, não fui consultado nem cheirado; mas concordei que era obra de caridade e uma obra de caridade não se censura. O pequeno veio tímido; mas, com os dias e graças à bondade com que era tratado, ganhou confiança e ficou sendo o ai-jesus da casa. Níquel daqui e níquel dacolá, ele ajuntava para ir ao cinema no Méier. Não havia mal nisto e nós gostávamos até do prurido de economia que ele denunciava. Eu cá dizia comigo: “É assim que se começa; ele economiza para o cinema e mais tarde economizará para os filhos. A economia é a base da prosperidade, sentença que está nos vinténs e, por estar em tão reles moeda, ninguém a cumpre”. Neste último carnaval, porém, tive prova que essa história de economia é uma parvoíce. Contra a economia estão armadas, uma porção de alçapões que a simplicidade do povo não vê e cai neles com uma facilidade assombrosa. Um deles é o “mafuá”. Paulino, sem consentimento de minha irmã, sai de casa para o “mafuá” do Engenho de Dentro. E preciso notar que ele é uma criança de nove anos. O “mafuá” estava em sessão permanente. Funcionava dia e noite; tinha até um salão de baile, cuja entrada custava simplesmente mil-réis. O povo o chamara, ao salão, “parque das cabras” – não sei porque. Pois Paulino lá foi e jogou os dois mil e tantos que tinha, no “jaburu” do tal “mafuá”.

– Daí? perguntei.

– Daí é que o jogo não deve ser permitido a menores, mesmo que se trate de edificação de igrejas.

Careta, Rio, 11-3-1922.

BILHETE

Ao senhor Jacinto Guimarães , caro amigo.

Depois que aprendi com o doutor Denis Júnior, homem de imprensa e de guerra, que andou armado com um canivete, parecido com uma espada, na qualidade de tenente de um “tiro” qualquer, dei na mania de escrever “bilhetes”.

Nunca conheci o excelentíssimo senhor Jacinto Guimarães. Hoje, juro, vim a conhecê-lo e tenho pena que só agora tivesse acontecido tal coisa.

(continua...)

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