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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Decerto! respondeu a adúltera. O senhor, durante o tempo em que me procurou agradar, não denunciou nenhum dos seus defeitos, nenhum dos seus achaques, nenhum dos seus lados antipáticos; fez, ao contrário, todo o possível para os encobrir com artifício e grande habilidade. Escondeu-me as suas misérias de velho, disfarçou a sua decrepitude e afetou entusiasmo pelas coisas do espírito; volveu-se moço, terno, apaixonado, estudou frases sedutoras, recitou versos, falou de prazeres ideais, fingiu abnegação, heroísmo, coragem, enfeitou-se enfim de poesia; e, entretanto, uma vez apoderado de mim, uma vez que me julgou segura para todo o resto de sua vida, atirou com os disfarces pela janela e pôs à minha disposição um resto de homem, egoísta, fraco, cheio de asma, rabugento e inútil!

— Senhora!

— É essa a verdade! Iludir! iludir! Iludida fui eu, porque eu era justamente a mais ingênua, a mais cândida e passiva, a mais fácil de enganar! Acredito que o senhor fosse igualmente iludido, mas foi por si próprio, porque se acreditou capaz de inspirar amor a uma mulher da idade que eu tinha então!

— Não foi isso o que me cegou, disse o comendador. Todo o meu erro foi supô-la virtuosa.

— Ora, meu caro senhor, a virtude é sempre uma coisa muito relativa; é sempre uma conseqüência e nunca um princípio. Toda a mulher é virtuosa, desde que ela tenha a quem dedicar essa virtude; é uma questão de gratidão, de reciprocidade e às vezes de interesse próprio. Mas por onde fez o senhor para merecer minha virtude?... For que era meu marido? Mas que espécie de marido era o senhor?! Admito que me lançasse em rosto aceitar o amor de um estranho, se eu tivesse à minha disposição o amor que o senhor me dedicasse. Mas onde está ele? por onde mo revelou? Trazendo-me para esta casa e dando-me o que comer?! Isso não basta!

— Belas teorias! não há dúvida!... disse o comendador sacudindo a cabeça.

São pelo menos verdadeiras! respondeu Teresa, já cansada de falar. E, depois de tomar fôlego, acrescentou:

— E ainda vem o senhor dizer, no seu fraseado cheio de afetação, que eu devia ao menos ter dó ou piedade do pobre velho, já que o homem, o marido, não me havia merecido amor! Mas valha-me Deus! Eu não me casei para ter dó de quem quer que fosse!... Eu não me propus ser uma irmã de caridade; eu apenas me propus dar amor em troca de amor; ceder o meu valimento de mulher em troca da competência de um homem! "Devia ao menos ter dó do pobre velho!" E o velho teve porventura dó de mim?! Não sabia ele que, o ligar-se a uma rapariga forte, perfeita, em plena saúde e em pleno vigor do sangue, equivalia a encarcerá-la num convento, entregue aos sobressaltos da sua mocidade e ao jugo inquisitorial dos seus desejos?! Se entre nós houver um mau, sem piedade e sem dó, foi o senhor, porque, jungida como me achei ao seu destino triste e desconsolado, tinha eu fatalmente, ou de me conformar com o círculo de ferro que o senhor traçou em volta dos meus sentidos, ou tinha de romper com ele e cair no desprezo da sociedade, sem nunca mais poder arrancar de mim o terrível estigma do adultério!

— E é isto naturalmente o que me está reservado... acrescentou ela, depois de uma pausa, enquanto o comendador meditava; com a diferença de que o senhor continuará a freqüentar as suas relações, jogará o seu voltarete, ouvirá o seu bocado de música em casa dos amigos, terá a sua chávena de chá, como dantes, e continuará a ser respeitado, ouvido e galanteado pela sociedade; ao passo que eu, desde que transponha aquela porta, terei de renunciar a tudo isso e de conformarme com a obscuridade e com o abandono do meu novo estado. Qualquer um se julgará, desde então, com o direito de me lançar em rosto a falta pela qual aliás não sou responsável, e todos me apontarão às filhas e às esposas como um monstro venenoso e traiçoeiro que é preciso evitar com o maior desvelo! Para o senhor: toda a indulgência, toda a compaixão, todas as simpatias de vítima; para mim: todo o desprezo, todo o ódio, toda a indignação e toda a repugnância! Oh! Esta teoria sim, esta teoria é que o senhor acha sem dúvida razoável!...

— E então o seu amante?! Esqueceu-se de que deve contar com ele?! Pois esse grande amor, que os impeliu um para o outro até ao crime, não é quanto basta para encher a vida de ambos?!...

E o comendador sorriu sarcasticamente.

(continua...)

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