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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

A respeito de mobília, só se carregou da Rua do Resende a que era de todo indispensável. Não se vendeu sequer um objeto; o casarão renderia muito mais com os trastes e, além disso, Mme. Brizard contava, mais dia, menos dia, reabilitar a sua antiga e afamada casa de pensão. — Porque, dizia ela — era impossível que as coisas não voltassem ao estado primitivo!...

Coqueiro é que parecia, como nunca, satisfeito de sua vida. Cuidava da nova casa com muito interesse; falava em melhoramentos e aconselhava a Amâncio a que comprasse uma mobiliazinha catita para ver como “ficava então naquele sótão melhor que um príncipe no seu castelo”.

A casa, de fato, convidava às fantasias do gosto, porque era perfeitamente nova e bem feita; o papel das paredes estava imaculado, o chão limpo e os tetos virgens ainda de moscaria

Amâncio experimentou rápidas melhoras; quis logo descer à cidade, mas o Coqueiro não lhe permitiu ir só.

Aproveitaram o passeio par comprar a mobília. O provinciano recebera nesse mês dinheiro do Norte e retirara mais algum da casa do Campos; João Coqueiro levou-o a uma loja de trastes e escolheu ele próprio o que podia convir ao outro; isto é, uma cômoda, um lavatório, uma boa cama de casados, uma secretária, duas estantes, um velador, e seis cadeiras; tudo de mogno e trabalhado a gosto moderno.

Estes arranjos pediam outras coisas; escolheram-se também dois quadros para o intervalo das portas, um belo espelho de parede, um relógio de pêndulo, tapetes, capachos e escarradeiras.

* * *

O Coqueiro, muito empenhado na condução dos trastes, havia-se afastado alguns passos de Amâncio, quando este sentiu baterem-lhe no ombro. Era o Paiva Rocha.

— Oh! exclamou, satisfeito com o encontro.— Como vais tu? Há quanto tempo não nos vemos!... Que é feito de ti?

— Ai, filho apoquentado! Respondeu o Paiva. Ultimamente tem sido uma enfiada de coisas más!...Há dois meses que não recebo dinheiro do correspondente; tinha aí um lugar de revisor numa folha e os ladrões passaram-me a perna em mais de duzentos mil-réis; além de que, a besta do diretor lá da escola lembrou-se agora do exigir uma infinidade de maçadas e obrigar-nos a despesas impossíveis! O diabo! E, mudando de tom, perguntou como ia Amâncio; onde se metera, que ninguém o via?

O outro prestou contas de sua vida, expôs os pormenores de sua moléstia, falou nos incômodos que dera à família do Coqueiro, principalmente a D. Amélia, que, por sinal, era uma excelente menina.

— Maganão!... disse o comprovinciano, esbarrando-lhe intencionalmente no braço.

Amâncio repeliu com febre aquela insinuação. O colega fazia uma tremenda injustiça, tanto a ele, Amâncio, como à pobre rapariga!

— Ora, filho! Queres tu agora dizer a mim o que é a gente do Coqueiro!...

Amâncio abriu grandes olhos.

— Morde aqui! Acrescentou o outro, apresentando-lhe o dedo.

E em troca de um gesto negativo do amigo:

— Não queres falar por ora, e fazes tu muito bem! Mas é impossível que a tua ingenuidade chegue ao ponto de tomares a sério a irmão do Coqueiro, — a Amélia dos camarões!...

— Juro-te que, até aqui, só a tenho tratado com todo o respeito!

O outro soltou uma risada.

— É fato! Insistiu Amâncio, aborrecido já com aquela troça do companheiro, mas ao mesmo tempo feliz por imaginar que as suas esperanças sobre a rapariga eram perfeitamente justificáveis.

— Pois, se é fato, acredita que tens representado um papel de tolo! Fazem-te a barba, filho!

Amâncio, então, para provar a pureza de sua conduta, pintou o estado em que se achara ultimamente, — entrevecido de reumatismo, sem préstimo para nada. E contou o que sofrera com as bexigas.

— Ora, dize-me cá...volveu o outro em tom de segredo. — O Coqueiro já te não tem dado algumas facadinhas...Confessa...

Amâncio, nem só confessou, como disse até o dinheiro que por várias vezes emprestara ao senhorio.

— Hein?! Bradou o Paiva, fazendo-se muito fino. — Queres mais claro?...E ainda tens escrúpulos, criança! Pois olha que te não fazem nenhum favor — tu pagas, filho, e pagas bem!

E lembrou que não seria mau tomarem alguma coisa num botequim próximo. O outro declarou que estava ali à espera do Coqueiro.

— Deixa lá o Coqueiro, homem! Tens medo de ir só para casa?...

— Mas é que não sei se me fará mal beber alguma coisa. Ainda estou em uso de remédios.

— Não sejas idiota! Exclamou o Paiva, puxando-o pelo braço.

Amâncio deixou-se levar, não tanto pelo prazer da companhia, como pela circunstância de se livrar do Coqueiro, o que lhe dava esperanças de ver Lúcia ainda essa tarde.

No café, defronte dos copos, a conversa voltou de novo à gente de Mme. Brizard.

— Gentinha! qualificou o Paiva, atirando a palavra com o desprezo de quem lança fora o sobejo de um copo.

E, depois, entornando os lábios, numa obstinação torpe:

— A questão está no pagamento!

(continua...)

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