Por Lima Barreto (1921)
Wells não nos diz, mas eu creio que, se ele não deu para ser assíduo frequentador das public houses , atirou-se ao Tâmisa.
Mas, digo eu agora: para que esse maluco foi ter uma idéia sua aos dezessete anos e trabalhar sozinho?
A.B.C., Rio, 26-11-1921.
O PRÉ-CARNAVAL
Entrou o ano, entrou o carnaval; e acontece isto por este Brasil em fora. O carnaval é hoje a festa mais estúpida do Brasil. Nunca se amontoaram tantos fatos para faze-la assim. Nem no tempo do entrudo , ela podia ser tão idiota como é hoje.
O que se canta e o que se faz, são o supra-sumo da mais profunda miséria mental.
Blocos, ranchos, grupos, cordões disputam-se em indigência intelectual e entram na folia sem nenhum frescor musical. São guinchos de símios e coaxar de rãs, acompanhados de uma barulheira de instrumentos chineses e africanos.
Na noite de 31 último, houve, como sempre, um carnaval preliminar que anuncia com muita precedência o que será o carnaval grande, na época própria. Isto aqui, em Niterói, em Belo Horizonte, em Cuiabá, etc., etc.
Os ranchos, os blocos, os grupos e os cordões saem de suas furnas e vêm para o centro da cidade estertorar coisas infames a que chamam “marchas”. Os jornais estão a postos e até põem redatores de sobressalente, para registrar nomes dos diretores e outros dados importantes do bloco, do rancho, do grupo e do cordão que possam interessar os seus leitores. Um nome sair no jornal que é, em geral, coisa difícil, nesses dias é fácil.
Basta que o seja do “caboclo” do cordão Flor de Jurumbeba.
A versalhada é publicada; e que versalhada, santo Deus!
Pior que a dos loucos dos hospícios.
Vejam esta só:
ESTRELA DE OURO
Estrela, hô, minha estrela!
Estrela minha guia!
Azul, encarnado e amarelo
Que aqui na terra brilha.
Fresca estrela que brilha na terra e é azul, “encarnado” e “amarelo”!
O Aldo carnavalesco vai nos explicar a história. Ei-la:
Eu vi estas três cores
Num paraíso de flores
Por elas meu bem
Eu vivo tão cheio de amôres
Vem.. . Dolores.
Esta versalhada é de Niterói; e, se na minha cidade se canta isso em público, tudo leva crer que lá não há polícia de costumes. Só o final...
Mas outros carnavalescos entusiastas formaram um “bloco”, denominam-no do “Nó” e vêm mostrar aos jornais o seu saber poético. Logo na primeira estrofe do seu hino, que chamam “marcha”, denunciam que são candidatos ao primeiro prêmio de reclusão mental que em geral todos eles disputam. Leiam com cuidado esta belezinha:
Seu Fulgêncio coronel
Eis aí o Bloco do Nó
Sempre firme no papel
De trazer alegria e só
Mas a granel.
É longa a tal marcha, por isso a não transcrevo toda aqui. Quando acabei de lêla, tive vontade de correr à casa do autor dela e perguntar-lhe, como aquela leitura a que Mark Twain alude, no Como me fiz redator de um jornal de agricultura; tive vontade de correr à casa do autor da marcha, como ia dizendo, e perguntar-lhe uma, duas, três, quatro, dez, cem vezes: foi o senhor mesmo quem escreveu isto?
Não o faço, porém, porque temo que o sujeito fique indignado, imaginando que o tenho por plagiário e até me sove à vontade.
Julgo-o capaz disso, porque, além de carnavalesco, é do football também.
Enfim, a leitura dessa pasmosa literatura carnavalesca, só nos pode levar a uma conclusão; é que a mentalidade nacional enfraquece e o próprio gosto popular se oblitera, em querer perder a sua espontaneidade e simplicidade.
Seja tudo pelo amor de Deus!
Careta, Rio, 14-1-1922.
CARNAVAL E A ELEIÇÃO DO “BAMBÔ
Este ano houve singulares acontecimentos no calendário republicano que coincidiram extremamente com um acontecimento do calendário eclesiástico: o aniversário da promulgação da atual Constituição quase foi no sábado de carnaval e a este se seguiu a data marcada para a eleição do presidente desta nossa venturosa república, cuja única prova de existência tem sido aumentar impostos, enriquecer mais os ricos e empobrecer ainda mais os pobres. De forma que, pelos signos dos tempos, a Magna Carta, como se diz em artigo de fundo, é prefácio do carnaval; e o “bambã” é escolhido em quarta-feira de cinzas, dia de grande amolecimento de corpo, dores de cabeça, vômitos, etc.
O caso não tem nada que ver com o fundo dos fatos políticos que se vão passando, porque nem que ele não se desse a observação diz que é geral, mesmo quando não esteja no decreto republicano e nos cálculos dos astrônomos das festas móveis da
Igreja.
A Constituição, pela sua gravidade, pela sua austeridade, é a figura sisuda da honestidade burguesa com grandes palavrões de moralidade política e administrativa, com sábios constitucionalistas, tribunais, quase divinos, ao lado.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.