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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Perdoa exclamou ela, abraçando-lhe os joelhos; perdoa! Eu não sei o que digo! eu não sei o que faço! Juro-te entretanto que não sou tão culpada como pareço! Desejava ser honesta; desejava ser o modelo das esposas; todo meu sonho era cumprir à risca os meus deveres! mas a natureza me arrebatava para os crimes de que me acusas; tudo me impelia para o mal, tudo me puxava para o adultério! Ah! tu não sabes decerto o que é ter a minha idade, o meu temperamento, o meu sangue! Tu não sabes o que é a mulher! o que é a natureza! o que são estes nervos, esta carne, e tudo isto que grita dentro de nós, como bocas com fome! Já agora falote com toda a franqueza. Eu nunca tive a idéia de faltar-te ao respeito; estimava-te, como se fosses meu pai; desejava o teu bem-estar, a tua felicidade, a tua alegria, como se deseja a ventura do melhor amigo; mas eu precisava de amor, não do amor frio e adormecido que me proporcionavas, mas de um amor ardente, fecundo, apaixonado, de alguém que tivesse a minha idade. Sei que fiz mal em sucumbir aos reclamos desta miserável matéria; mas que queres tu?! não fui eu quem me fez e quem decretou as leis que haviam de reger os meus sentidos! Sucumbi, mas não sou a responsável pela minha queda! Se quiseres, mata-me; faze o que entenderes de mim; eu te não amaldiçoarei; mas, por amor de Deus! poupa aquele moço, que ele nenhuma culpa tem do que sucedeu. Fui eu quem o arrastou, quem o seduziu! Ele não seria capaz de cometer essa infâmia, porque é homem e não está como nós outras, míseras mulheres, seguro pelas carnes e pelos cabelos às unhas do pecado!

— Tu o adoras, desgraçada! exclamou o comendador, ferido no coração.

— Sim! respondeu Teresa, pondo-se de pé e olhando friamente para o marido. Eu o adoro! Se me tivessem casado com um moço, é natural que me não lembrasse de ter um amante; mas tu és um velho, tu és um destroço; a ti poderia dedicar minha alma, mas meu corpo, esse teria de pertencer fatalmente a alguém que o escravizasse, a alguém que lhe pudesse domar os ímpetos!

E Teresa, ao terminar estas palavras, caiu arquejante sobre uma cadeira, a resfolegar aliviada, como se acabasse de despejar um grande peso da consciência.

O marido, imóvel ao lado dela, não lhe tirava de cima o seu frio olhar de cólera ciumenta.

— Já nada existe de comum entre nós... disse afinal a desgraçada, passando a mão pelo rosto. Foi até melhor que nos entendêssemos por uma vez! Eu, confesso, não podia suportar o senhor por mais tempo... Pesava-me enganá-lo; não sirvo para a traição e para o embuste: sou capaz de uma loucura, mas repugname praticar uma covardia...

— Por que então se casou comigo!?... perguntou o comendador com a voz trêmula. Para que consentiu, se me não podia suportar, que ligassem o meu triste destino ao seu? Se me não amava, ou se não sentia a coragem de conservar-se fiel aos votos do matrimônio, por que o não declarou com franqueza antes de arriscar meu nome e minha honra? Para que me iludiu?! Oh! a senhora é perversa! Um pouco de bondade a teria levado a proceder de outro modo; se o marido, se o homem, não lhe merecia amor e dedicação, o pobre velho devia ao menos inspirarlhe dó ou piedade! Que lhe custava esperar um pouco que eu fechasse os olhos?... Não tenho tanto a viver... e a senhora depois poderia fartar à vontade todos os seus instintos desordenados. Mas não! preferiu amargurar-me o resto da vida, preferiu cobrir-me a velhice de vergonha e desgostos; não consentiu que eu pudesse retirarme para a sepultura sem ir amortalhado nos farrapos da minha pobre dignidade, que a senhora estraçalhou nos seus momentos desenfreados de luxúria!

— Oh! exclamou Teresa, cobrindo o rosto com as mãos. É demais!

— Tarde, bem tarde lhe assiste o pudor, minha senhora! continuou o velho, fazendo um gesto de desprezo. Não acredito que minhas palavras, por muito duras e grosseiras, possam encontrar eco em coração tão corrompido!

— Mas para que me há de o senhor insultar desta maneira? perguntou Teresa, erguendo-se de novo. Se me casei com o senhor, se consenti em ligar-me ao seu destino, não foi, repito, porque o quisesse enganar; foi porque não conhecia absolutamente os segredos do meu destino de mulher. Podia eu, porventura, prever o que me esperava? sabia eu por acaso o que e amar ou aborrecer um homem?... Uma criatura nas circunstâncias em que me casei nada entende dessas coisas. Aceita o primeiro marido que atiram sobre ela, como aceitaria qualquer outro! Por que o iludi? perguntou o senhor; e eu, porventura, não fui também iludida?...

— Iludida?! interrogou o comendador, escancarando os olhos.

(continua...)

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