Por Aluísio Azevedo (1884)
— Então, meu estudante! — disse o jurisconsulto, empinando a cabeça — Já escolheu a carreira que deseja seguir?
— Marinha, respondeu Amâncio secamente.
A farda seduzia-o. Nada conhecia “tão bonito” como um oficial de marinha.
A mãe riu-se com aquela resposta, e olhou em torno de si, chamando a atenção dos mais para o desembaraço do filho.
À meia-noite foram todos de novo para a mesa. O Vasconcelos era muito rigoroso quando recebia gente em casa ;queria que houvesse toda a fartura de vinhos e comida. Os brindes reapareceram. Abriram-se as garrafas de Moscato d’Asti, Chateau Yquem e Champagne.
Conversou-se a respeito dos vinhos de Vasconcelos. “O Maranhão era incontestavelmente uma das províncias onde melhor se bebia!” Do meio para o fim da ceia, Amâncio sentiu-se outro.
Em uma ocasião, que o pai se afastara da mesa, ele pediu um brinde e cumprimentou as “pessoas presentes”.
Este fato causou delírios. O próprio pai não se pôde conter e disse entredentes, a rir :
— Ora o rapaz saiu-me vivo!
Ângela abraçou o filho, chorando de comovida.
— Que lhe disse eu?...resmungou delicadamente o Silveira ao ouvido dela — Este menino promete! Dêem-lhe asas e hão de ver ...dêem-lhe asas!...
Amâncio foi coberto de ovações. Batiam-lhe no copo, faziam-lhe saúdes. Ele a todos respondia, rindo e bebendo.
Daí a uma hora recolheram-no à cama da mãe, porque lhe aparecera uma aflição na boca do estômago; mas vomitou logo e adormeceu depois, completamente aliviado.
Foi a sua primeira bebedeira.
* * *
Aos quatorze anos prestou exame de francês e geografia e matriculo-se nas aulas de gramática geral e inglês.
Já eram válidos, felizmente, os exames do Liceu do Maranhão, e com as cartas que daí houvesse, podia entrar nas academias da Corte.
Amâncio, de[pois da escola do Pires, nunca mais voltou a passar férias na fazenda da avó. Preferia ficar na cidade :tinha namoros, gostava loucamente de dançar, já fumava, e já fazia pândegas grossas com os colegas do Liceu.
Como o pai não lhe dava liberdade , nem dinheiro, e como exigia que ele às nove horas da noite se recolhesse a casa, Amâncio arranjava com a mãe os cobres que podia e, quando a família já estava dormindo, evadia-se pelos fundos do quintal. Era Sabino quem lhe abria e fechava o portão.
O moleque gostava muito dessas patuscadas. O senhor – moço levava-o à vezes em sua companhia. Amigos esperavam por eles lá fora, reuniam-se; tinham um farnel de sardinhas, pão, queijo, charutos e vinho. Era pagodear até pela madrugada!
Se havia chinfrim - entravam, ou então iam tomar banho no Apicum ou cear ao Caminho Grande. Em noites de luar faziam serenatas ;aparecia sempre alguém que tocasse violão ou flauta ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos sábados o passeio era maior; no dia seguinte Amâncio estava a cair de cansaço, aborrecido, necessitando de repouso.
Mas não deixava de ir. — Era tão bom passear pela rua, quando toda a população dormia; fumar, quando tinha certeza de que nenhum dos amigos de seu pai o pilharia com o charuto no queixo ;era tão bom beber pela garrafa, comer ao relento e perseguir ima ou outra mulher, que encontrassem desgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da cidade!
Tudo isso lhe sorria por um prisma voluptuoso e romanesco.
Às vezes entrava em casa ao amanhecer. Não podia dormir logo ;vinha excitado, sacudido pelas impressões e pela bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem impotente de conceber poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo, cantar orgias, extravagâncias, delírios.
E afinal adormecia, lendo Mademoiselle de Maupuin, Olympia de Clèves ou Confession d’un enfant du siècle.
Não penetrava bem na intenção deste último livro, mas tinha-o em grande conta e, visto conhecer a biografia de Musset, embriagava-se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias estranhas, amores céticos, viagens misteriosas e paixões indefinidas.
As criadas da casa ou as mulatinhas da vizinhança já o enfaravam :era preciso descobrir amores mais finos, mais dignos, que, nem só lhe contentassem a carne, como igualmente lhe socorressem as ânsias da imaginação.
Por esse tempo leu a Graziella e o Raphael de Lamartine .Ficou possuído de uma grande tristeza; as lágrimas saltaram-lhe sobre as páginas do livro. Sentiu necessidade de amar por aquele processo, mergulhar na poesia, esquecer-se de tudo o que o cercava, para viver mentalmente nas praias de Nápoles, ou nas ilhas adoráveis da Sicília, cujos nomes sonoros e musicais lhe chegavam ao coração como o efeito de uma saudade ,amarga e doce, de uma nostalgia inefável, profunda, sem contornos, que o atraía para outro mundo desconhecido, para uma existência, que lhe acenava de longe, a puxá-lo com todos os tentáculos de seu mistério e da sua irresistível melancolia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.