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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Nesse momento a sala enchia-se de convidados; e o piano dava o aviso da primeira quadrilha. 

 

Amália, tomando o braço de seu par, separou-se do doutor com esta palavra, confeita em um sorriso: 

 

— Depois. 

  

Capítulo 5 

 

Em meio da partida, quando servia-se o chá, Amália com um aceno do leque indicou a Henrique Teixeira uma cadeira que vagara a seu lado. 

 

— E o nosso folhetim? 

 

— Refleti, D. Amália; o melhor é falarmos de outra coisa. 

 

— Confessa, portanto, que seu amigo é como os outros; mais um exemplar desse compêndio já muito conhecido que se chama marido. 

 

— Não, senhora, não confesso; calo-me. Não devo expor à sua zombaria a vida íntima do amigo que mais prezo. 

 

— Esta reflexão, devia tê-la feito em princípio, doutor. Depois de haver-me aguçado a curiosidade, está na obrigação de satisfazê-la, e é o mais prudente, porque o seu silêncio compromete o seu amigo. 

 

— Em quê? 

 

— Dá-me o desejo de fazer acerca dele, e acerca dessa vida íntima que não pode ser profanada, as mais extravagantes suposições. 

 

— Esta razão me decide. 

 

— A outra devia ter a preferência, por fineza ao menos. 

 

— Qual outra? 

 

— A de não duvidar da minha discrição. 

 

— Perdão; eu a ofenderia se acreditasse nela. Seria suspeitar de seus dezoito anos, e fazer brancos ou grisalhos tão belos cabelos louros.  

 

— Entretanto há pouco pedia reserva aos meus belos cabelos louros, observou Amália com um gesto encantador. 

 

— Sem dúvida. A reserva que eu lhe pedia era a de contar a história tão enfeitada que já não fosse a mesma referida por mim. 

 

— Terei esse cuidado; e até me incumbo de ilustrá-la com retratos. Mas antes de tudo preciso conhecê-la. 

 

— Então quer ouvir? 

 

— E dispenso o prólogo. 

 

— Voltando da Europa, há três meses, passei os primeiros dias em casa de Carlos, que me esperava e foi buscar-me a bordo. Chegamos a São Clemente pela manhã; e depois do banho clássico, nos reunimos em uma sala, que fazia parte dos aposentos da mulher e onde esta mais assistia. Notei então que ele, algumas vezes, distraidamente, voltava-se para o sofá, permanecia por momentos com os olhos fitos na almofada de veludo a que habitualmente se recostava D. Julieta. 

 

— E suspirava naturalmente ou enxugava a furto uma lágrima silenciosa que lhe queimava a face? perguntou Amália com seriedade picante. 

 

— Não; ao contrário, sorria-se. 

 

— Deveras! O seu herói tem um cunho original. Estou me interessando por ele 

 

—A sala em que nos achávamos, e a presença de Carlos, a quem revia depois de anos de ausência, remontavam o meu pensamento aos primeiros tempos de seu casamento, em que tantas vezes nos reuníamos ali em família, ele, sua mulher e eu. Parecia-me ver ainda o talhe elegante de D. Julieta, que nos escutava, atenta, enlevada na voz do marido, e dando-nos de vez em quando, com uma observação espirituosa, o tema da conversação E essa evocação entristeceu-me. Entretanto Carlos estava contente; e no seu semblante respirava a satisfação d'alma. Supus que era o prazer da minha volta; mas não podia conciliá-lo com as recordações vivas que se estavam traindo nos seus gestos. 

 

— Essas recordações eram puramente cacoetes de viúvo. 

 

— Vai ver. Pouco depois o Abreu chamou-nos para o almoço. Carlos tomou o seu lugar do costume; eu sentei-me defronte e notei logo que havia um talher em frente à cadeira de honra, outrora ocupada pela dona da casa. Tínhamos pois uma terceira pessoa; talvez alguma velha parenta de Carlos. 

 

— E por que não seria alguma prima moça e bonita, que viesse tentar aquele modelo de constância? Aposto que adivinhei. 

 

— Não adivinhamos, nem a senhora, nem eu. O Abreu serviu-nos, e eu a convite do dono da casa almocei com apetite de viajante. Uma coisa me causou reparo. Quando Carlos incumbia-se de trinchar, depois de fazer o prato para mim, fazia outro que passava ao Abreu. Este em vez de advertir o amo da sua distração colocava o prato na cabeceira, sobre o terceiro talher intacto, e o meu amigo tirava para si nova porção; depois o criado mudava todos os três talheres. 

 

— Ah! percebo. Um eclipse matinal da estrela. 

 

(continua...)

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