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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Irmãos das Almas

Por Martins Pena (1848)

CABO, entrando – Que gritos são esses? 

MARIANA – Temos ladrões em casa! 

CABO – Aonde estão? 

EUFRÁSIA – Ali no armário! 

LUÍSA, à parte – No armário! Que fiz eu? Está perdido... (O cabo dirige-se para o armário com os soldados. Mariana, Eufrásia e Luísa encostam-se para a esquerda, junto à porta.) 

CABO, junto ao armário – Quem está aí? 

JORGE, dentro – Abra, com todos os diabos! 

CABO – Sentido, camaradas! (O cabo abre a porta do armário; por ela sai Jorge, e torna a fechar a porta com presteza. O cabo agarra-lhe na gola da casaca.) Está preso. 

JORGE, depois de ter fechado o armário – Que diabo é isto? 

CABO – Nada de resistência. 

JORGE – O ladrão não sou eu. 

EUFRÁSIA, do lugar onde está – Senhor permanente, este é meu marido. 

JORGE – Sim senhor. Eu tenho a honra de ser o marido da senhora. 

EUFRÁSIA – Fui eu que o fechei no armário, e por isso é que se deu com os ladrões que ainda estão lá dentro. 

JORGE – Sim senhor, a senhora fez-me o favor de me fechar aqui dentro, e por isso é que se deu com os ladrões... que aqui estão ainda... 

CABO – Pois abra. (O cabo diz estas palavras a Jorge porque ele conserva-se, enquanto fala, com as costas apoiado no armário. Jorge abre a porta, sai Sousa; o cabo segura em Sousa. Jorge torna a fechar o armário e encosta-se. Sousa e o cabo que o segura caminham um pouco para a frente.)

JORGE – Este que é o ladrão. 

SOUSA – Não sou ladrão. Deixe-me! 

MARIANA – O compadre! 

SOUSA – Comadre... (Mariana chega-se para ele.)

JORGE – Segure-o bem, senão foge. 

SOUSA – Fale por mim, comadre. Diga ao senhor que eu não sou ladrão. 

JORGE – É ele mesmo, e outro que aqui está dentro. 

CABO – Vamos. 

SOUSA – Espere. 

MARIANA – Como é que você, compadre, estava ali dentro? 

SOUSA – Por causa de um maldito relógio que... 

JORGE – Vê? Está confessando que roubou o relógio. Ali está sobre a mesa. 

CABO – Siga-me. 

SOUSA – Espere! 

MARIANA – Um momento. 

CABO – Senão vai à força. Camaradas! 

JORGE – Duro com ele! (Chegam-se dois soldados e agarram em Sousa.)

CABO – Levem este homem para o quartel. 

SOUSA, debatendo-se – Deixem-me falar... 

CABO – Lá falará. (Os soldados levam Sousa à força.)

SOUSA – Comadre! Comadre! 

JORGE – Sim, sim; lá falará! Patife, ladrão! 

MARIANA – Estou confusa! 

JORGE – Vamos aos outros que cá estão. 

EUFRÁSIA – Não explico isto! (Jorge abre a porta do armário; sai por ela, com impetuosidade, Felisberto. Atira com Jorge no chão e foge pela porta do fundo. O cabo e os dois soldados correm em seu alcance.) 

CABO – Pega, pega! (Sai, assim como os soldados. Jorge levanta-se.)

JORGE – Pega ladrão! Pega ladrão! (Sai atrás, correndo.) 

 

CENA XVIII 

MARIANA, EUFRÁSIA e LUÍSA. 

 

MARIANA – É meu sobrinho! 

EUFRÁSIA – É o primo! 

LUÍSA, à parte – Terá ele saído? 

MARIANA – Não sei como foi isto. 

EUFRÁSIA – Nem eu. 

MARIANA – Deixei o compadre aqui sentado. 

EUFRÁSIA – O primo estava pedindo esmolas. 

MARIANA – Isto foi traição do patife do meu genro. 

EUFRÁSIA – Não pode ser outra coisa. 

MARIANA – Mas deixe-o voltar... 

EUFRÁSIA – Eu lhe ensinarei... (Durante este pequeno diálogo, Luísa, que está um pouco mais para o fundo, vê Tibúrcio, que da porta do armário lhe faz acenos.) 

MARIANA – O que estás tu a fazer acenos? Vem cá. (Pega-lhe pelo braço.) Vistes o que fez o belo do teu irmão? Como ele não está aqui, tu é que me hás de pagar. 

LUÍSA – Eu? E por quê? 

MARIANA – Ainda pergunta por quê? Não viste como ele fez prender a meu compadre e a meu sobrinho? Isto são coisas arranjadas por ele e por ti. 

LUÍSA – Por mim? 

EUFRÁSIA – Sim, por ti mesma. 

LUÍSA – Oh! 

MARIANA – Faze-te de nova! Não bastava aturar eu o desavergonhado do irmão; hei de também sofrer as poucas vergonhas desta deslambida. (Luísa chora. Aqui aparece à porta do fundo Jorge; vendo o que se passa, pára em observação.) Hoje mesmo não me dorme em casa. Não quero. Vai ajuntar a tua roupa, e rua! rua! (Tibúrcio sai do armário e encaminha-se para elas.) 

TIBÚRCIO – Não ficará desamparada. (Mariana e Eufrásia assustam-se.)

LUÍSA – Que fazes? 

TIBÚRCIO – Vem, Luísa. 

MARIANA – Quem é o senhor? 

TIBÚRCIO, para Luísa – Vamos procurar teu irmão. 

LUÍSA – Espera. (Eufrásia observa com atenção a Tibúrcio.) 

MARIANA – Isto está galante. Muito bem! Com que a menina tem os amantéticos escondidos. Está adiantada... 

TIBÚRCIO – Senhora, mais respeito! 

(continua...)

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