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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Como?... Tem alguém de olho? 

- Perdão, meu tio, não entendo sai linguagem figurada. Digo-lhe que escolhi o homem com quem me hei de casar. 

- Já compreendo. Mas bem vê!... Como tutor, tenho de dar minha aprovação. 

- De certo, meu tutor; mas essa aprovação o senhor não há de ser tão cruel que a negue. Se o fizer, o que eu não espero, o juiz de órfãos a suprirá. 

- O juiz?... Que histórias são essas que lhe andam metendo na cabeça, Aurélia? 

- Sr. Lemos, disse a moça pausadamente e trespassando com um olhar frio a vista perplexa do velho; completei dezenove anos; posso requerer um suplemento de idade mostrando que tenho capacidade para reger minha pessoa e bens; com maioria de razão obterei do juiz de órfãos apesar de sua oposição, um alvará de licença para casar-me com quem eu quiser. Se estes argumentos jurídicos não lhe satisfazem, apresentar-lhe-ei um que me é pessoal. 

- Vamos ver! Acudiu o velho para quebrar o silêncio. 

- É a minha vontade. O senhor não sabe o que ela vale, mas juro-lhe que para a levar a efeito não se me dará sacrificar a herança de meu avô. 

- É próprio da idade! São idéias que somente se têm aos dezenove anos; e isso já vai sendo raro. 

- Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho dias grandes lições do mundo: a da miséria e a da opulência. Conheci outrora o dinheiro como um tirano; hoje o conheço como um cativo submisso. Por conseguinte devo ser mais velha do que o senhor que nunca foi nem tão pobre, como eu fui, nem tão rico, como eu sou. 

O Lemos olhava com pasmo essa moça que lhe falava com tão profunda lição do mundo e uma filosofia para ele desconhecida. 

- Não valia a pena ter tanto dinheiro, continuou Aurélia, se ele não servisse para 

casar-se a meu gosto; ainda que para isto seja necessário gastar alguns miseráveis milhares de cruzeiros. 

- Aí é que está a dificuldade, acudiu o Lemos que desde muito espreitava alguma objeção. Bem sabe Aurélia que eu como tutor não posso despender um centavo sem autorização do juiz. 

- O senhor não me quer entender, meu tutor, replicou a moça com um tênue assomo de impaciência. Sei disso, e sei também muitas coisas que ninguém imagina. Por exemplo: sei o dividendo das apólices, a taxa do juro, as cotações da praça, sei que faço uma conta de prêmios compostos com a justeza e exatidão de uma tábua de câmbio. O Lemos estava tonto. 

- E por último sei que tenho uma relação de tudo quanto possuía meu avô, escrita por seu próprio punho e que me foi dada por ele mesmo. 

Desta vez o purpurino velhinho empalideceu, sintoma assustador de tão completa e maciça carnadura, como a que lhe acolchoava as calcinhas emigradas e o fraque preto. 

- Isto quer dizer que se eu tivesse um tutor que me contrariasse e caísse em meu desagrado, ao chegar à minha maioridade não lhe daria quitação, sem primeiro passar um exame nas contas de sua administração para o que felizmente não careço de advogado nem de guarda-livros. 

- Sim, senhora; está em seu direito, tornou o velho contrito. 

- Cabendo-me porém a fortuna de ter um tutor meu amigo, que me faz todas as vontades, como o senhor, meu tio...

- Lá isso é verdade! 

- Neste caso, em vez de matar a paciência e aborrecer-me com autos e contas, dou tudo por bem feito. Ainda mais, sei que a tutela é gratuita, mas assim não deve ser quando os órfãos tem de sobra com que recompensar o trabalho que dão. 

- Lá isso não, Aurélia. Este encargo é uma dívida sagrada, que pago à memória de sua mãe, a minha boa e sempre chorada irmã... 

O Lemos enxugou no canto do olho uma lágrima que ele conseguira espremer, se é que não a tinha inventado como parece mais provável. E a moça em tributo à memória de sua mãe evocada pelo velho, ergueu-se um instante a pretexto de olhar pela janela. 

Quando voltou a seu lugar, o Lemos estava de todo restabelecido dos choques por que havia passado; e mostrava-se ao natural, fresco, titilante e risonho. 

(continua...)

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