Por José de Alencar (1861)
Rita— Ninguém. Iaiá não passeia todos os dias?
Joaquim — Passeia com você.
Rita— Pois então?
Joaquim — Ninguém deu ordem.
Rita— Se a gente for esperar por isso, não se faz nada. Você vê quando é para deitar o jantar; pergunta-se ao Senhor, ele diz: "Se a Senhora mandar". Vai-se perguntar à Senhora, ela diz: "Se o Senhor mandar". E assim é tudo.
Joaquim — Que tem você com isso?
Rita— É que se a gente não fizer as cousas, ninguém manda fazer.
Joaquim — Branco lá se entende. Vá vivendo sua vida, Rita, que Senhor é muito bom.
Rita— Quem não sabe disto? Minha Senhora, essa é mesmo uma santa. Olhe, Joaquim! Tenho uma pena de ver como ela se amofina. E é por causa de seu Senhor!
Joaquim — Cale a sua boca, Rita. Não se meta onde não é chamada.
Rita— Mas, diga uma cousa! Antes de Nhanhã Clarinha casar, não andava tudo tão direito?
Joaquim — Tal e qual, como agora.
Rita— Que história! Esta casa era uma alegria!... Sinhá brincava que parecia uma mocinha: Nhanhã estava sempre rindo e cantando; e Senhor moço Henrique esse nem se fala. Depois daquela doença grande de meu Senhor é que tudo mudou.
Joaquim — Aí vem Senhora; bico!
CENA II
Os mesmos, Isabel e Iaiá
Isabel (trazendo Iaiá pela mão) — Senhor já saiu?...
Joaquim — Não Senhora. Está no gabinete falando com um caixeiro do Sr. Souto.
Isabel — Agora Iaiá vai passear, sim?... Passear no carro com Rita!
Rita— Venha, Iaiá!
Isabel — Olhe, Rita está chamando. Não dá um beijo na sua Mamãe, não?... beija. Ah!... Agora vá dar um em Papai para Iaiá ficar bonita. (Rita toma a menina)
Rita— Diga — Mamãe adeus!... Diga... Ora Iaiá é feia.
Isabel — Tem cuidado com o vento! Ela não está boa.
Rita— Eu abaixo sempre as vidraças do carro.
Joaquim — O tempo está muito bom, sim Senhora.
Rita— Vamos tomar a benção a Papai?
Isabel — Adeus!... (a Rita) não te demores muito.
CENA IIl
Isabel e Joaquim
Joaquim — Esta carta é para minha Senhora.
Isabel — Entrega a teu Senhor.
Joaquim — Mas ele não gosta.
Isabel — Reúna com as outras.
Joaquim — Minha Senhora quer ler os jornais?
Isabel — Depois, se ficarem aí.
Joaquim — Mando pôr o almoço?
Isabel — Teu Senhor já pediu?
Joaquim — Ainda não, Senhora.
Isabel — Escuta! ele anda doente?
Joaquim — Não, Senhora.
Isabel — Ontem estava tão pálido...
Joaquim — Meu Senhor trabalha muito.
Isabel — Passa as noites a escrever! E isso faz-lhe tanto mal!
Joaquim — Esta noite ele dormiu cedo!
Isabel — Cedo! Às três horas ainda estava trabalhando.
Joaquim — E minha Senhora viu?
Isabel — Não lhe digas isto. Acordei por acaso; pareceu-me ouvir gemer... Vim escutar naquela porta...
Joaquim — Quem sabe se não foi minha Senhora que passou ali a noite chorando.
Isabel — Chorando por quê?... Não tenho motivos de chorar. Vivo tão satisfeita! Tu não vês?...
Joaquim — Minha Senhora me perdoa. Eu não disse.
Isabel — Sabes o que me aflige? É que falte alguma cousa a teu Senhor. Ele nunca se queixa! Mas deves ver o que ele deseja, para se fazer imediatamente. A roupa está pronta: vou dar-te daqui a pouco. Por que não trazes a outra?
Joaquim — A outra?...
Isabel — Sim; para mandar lavar.
Joaquim — A outra... já foi, sim, Senhora.
Isabel — Joaquim!... Que ordem te dei eu?
Joaquim — Que minha Senhora mesma é que queria tomar conta da roupa de meu Senhor.
Isabel — E não fizeste caso?...
Joaquim — Meu Senhor a semana passada me disse: — "Joaquim, não quero que tua Senhora tenha motivo de afligir-se. Ela não deve se amofinar com tantas cousas.
Manda lavar minha roupa fora".
Isabel — E tu mandaste?
Joaquim — Que havia de fazer, minha Senhora?
Isabel — Tens razão. (Enxuga a furto uma lágrima)
CENA IV
Os mesmos e Miranda
(Joaquim afasta-se vendo o Senhor. Miranda cumprimenta friamente Isabel: sentase e lê as cartas)
Miranda — Joaquim! Esta carta é de tua Senhora.
Joaquim — Veio
com as outras. (Entrega a Isabel)
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.