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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Ambientado no interior do Brasil, o texto retrata a vida no sertão nordestino e acompanha personagens marcados pela coragem, pela honra e pela ligação profunda com a terra. A narrativa apresenta costumes, conflitos e desafios do sertanejo, destacando a luta pela sobrevivência em um ambiente hostil. Com tom idealizado e descritivo, a obra valoriza a identidade regional e os valores do homem do sertão.

PRIMEIRA PARTE 

 

I – O comboio 

 

Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o sertão de minha terra natal. 

Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela cauda com admirável destreza. 

Aí, ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra. 

Quando te tomarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há muitos anos na aurora serena e feliz da minha infância? 

Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante? 

De dia em dia aquelas remotas regiões vão perdendo a primitiva rudeza, que tamanho encanto lhes infundia. 

A civilização que penetra pelo interior corta os campos de estradas, e semeia pelo vastíssimo deserto as casas e mais tarde as povoações. 

Não era assim no fim do século passado, quando apenas se encontravam de longe em longe extensas fazendas, as quais ocupavam todo o espaço entre as raras freguesias espalhadas pelo interior da província. 

Então o viajante tinha do atravessar grandes distâncias sem encontrar habitação, que lhe servisse de pousada; porisso, a não ser algum afoito sertanejo à escoteira, era obrigado a munir-se de todas as provisões necessárias tanto à comodidade como à segurança. 

Assim fizera o dono do comboio que no dia 10 de dezembro de 1764 seguia pelas margens do Sitiá buscando as faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim. 

Uma longa fila de cargueiros tocados por peões despeja o caminho nessa marcha miúda e batida a que dão lá o nome de carrêgo baixo, e que tanto distingue os alegres comboios do norte das tropas do sul a passo tardo e monótono. 

Os recoveiros armados de sua clavina e faca de mato formavam boa escolta para o caso de necessidade. Além deles, acompanhava a pesada bagagem uma caterva de fâmulos de serviço doméstico e acostados. 

Adiante do comboio, e já muito distante, aparecia a cavalgada dos viajantes. 

Compunha-se ela de muitas pessoas. Dessas, vinte pertenciam à classe ainda não extinta de valentões, que os fazendeiros desde aquele tempo costumavam angariar para lhes formarem o séquito e guardarem sua pessoa, quando não serviam, como tantas vezes aconteceu, de cegos instrumentos a vinganças e ódios sanguinários. 

Em geral essa gente adotara um trajo em que a moda portuguesa do tempo era modificada pela influência do sertão. Aqueles, porém, traziam um gibão verde guarnecido de galão branco, uma véstia amarela e calções da mesma côr com botas pretas e chapéus à frederica. 

Larga catana à ilharga, trabuco a tiracolo e adaga à cinta, além dos pistoletes nos coldres, completavam o equipamento dêstes indivíduos cuja sinistra catadura já de si inculca mais susto do que as próprias armas. 

Traziam mais, presa à borraina da sela e suspensa às ancas do animal, a larga machada que servia-lhes no caso de necessidade para abrir a picada na mata-virgem, ou improvisar uma ponte sôbre o rio cheio: utensílio indispensável naquele tempo ao viajante, que muitas vezes o transformava em arma terrível. 

Ia de cabo a essa fôrça um homem de exígua figura, magriço, que trajava como os seus companheiros, com a diferença de trazer a farda de pano verde e o chapéu do feltro agaloados de prata. 

Esta escolta acompanhava duas pessoas que eram sem dúvida os donos do comboio. 

A primeira, homem de cincoenta anos, do alto porte e compleição robusta, mostrava pelo chapéu armado e pela farda escarlate com galões dourados ser um capitão-mór de ordenanças. Montava cavalo ruço-pedrês, o qual dava testemunho de seu vigor na galhardia com0que suportava o pêso do corpulento cavaleiro, além de umas vinte libras da prata dos arreios. 

A segunda personagem, dama de meia idade, mas bem conservada e prazenteira, manejava com donaire o seu cavalo castanho, também ajaezado de prata como o de seu marido. O vestido de montar era de fino droguete verde-garrafa com alamares de torçal de ouro, e o chapéu, em forma de touca, ornado de um cocar de plumas tricolores, que ao movimento do cavalo se agitavam em tôrno da cabeça. 

Atualmente viaja-se pelo nosso interior em hábitos caseiros; não era assim naquele bom tempo em que um capitão-mór julgaria derrogar da sua gravidade e importância, se fossem vistos na estrada, êle e a esposa, sem o decôro que reclamava sua jerarquia. 

(continua...)

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