Por José de Alencar (1870)
— Meu padrinho tem muitos por quem olhar; não pode chegar para todos. Se eu não voltar, sempre ficará com que acender o fogo.
— Que diz tua mãe a tudo isto?
— Ela não sabe.
Bento Gonçalves deu duas voltas pela sala.
— Escuta, Manuel. Teu coração te pede o que vais fazer? Sentes que sem isso não poderás viver descansado? Fala verdade.
— Se eu não vingasse o pai, ele me renegaria lá do céu e não quereria para filho um poltrão ingrato.
— Com a breca! Meu ofício não é de padre! exclamou impetuosamente o coronel. Vai, rapaz; segue teu impulso. Tenho fé em que hás de honrar as barbas de teu padrinho; se chegar tua hora, o que não há de suceder, descansa em paz, que eu velarei sobre tua mãe.
— Obrigado, meu padrinho; bote-me sua bênção.
— Deus te abençoe e te acompanhe, Manuel.
Beijou o gaúcho a mão vigorosa do coronel, que ria-se estrepitosamente para disfarçar a comoção.
Quando Manuel recolhia-se à pousada, ouviu uns rufos de guitarra coados pelas frestas esclarecidas de uma rótula da vizinhança. Ao som do acompanhamento arrastado, uma voz maviosa, de timbre infantil, dizia com terna expressão uma cantiga brasileira. O gaúcho apesar de preocupado pôde ouvir as seguintes coplas:
A minha branca pombinha.
Com tanto amor a criei;
Depois de bem criadinha,
Fugiu-me; por que, não sei.
Quis beijar o seio dela,
Bateu as asas, voou;
A minha pombinha bela,
Foi gavião que a levou.
— Bravo, Catita! exclamou a voz do Lucas Fernandes.
V
O PÁREO
Dias depois, já em outubro, na sala de uma pousada da província de Entre-Rios, estavam reunidos vários andantes, invernistas e também alguns capatazes da vizinhança.
Ente outros pousara ali um chileno que vinha de Mendoza ou Córdova, e contava atravessar toda a campanha até o Rio Grande do Sul. Espécie de mercador ambulante, misto de mascate e de aventureiro, costumava ele percorrer as cidades e povoações do interior à cata do bom negócio, como da boa-vida.
Trazia duas ou três mulas carregadas com uma partida de fazendas de lã e seda, porém especialmente de chapéus-do-chile, palas de vicunha, e guarnições de prata para arreios de montaria. De caminho ia chatinando a sua mercadoria, e comprando animais, que mais adiante negociava, se lhe ofereciam bom lucro.
Quando tinha a bolsa recheada, e achava encanto no lugar, deixava-se ficar uns oito ou quinze dias, quantos bastavam para concluir alguma aventura amorosa, ou para tirar a sua desforra dos parceiros que no jogo da primeira lhe haviam limpado as onças.
Ao cabo de uma ou duas semanas, partia-se uma bela manhã, mais ligeiro da bolsa, porém, contente de si, e prazenteiro sempre; levava a alma cheia da plena confiança que adquire o homem errante, habituado à boa e à má fortuna, afeito ao sol e à chuva.
Neste circuito, muitas vezes consumia o nosso chileno dois ou três anos. Freqüentemente chegava até Sorocaba, onde a grande feira de animais costuma reunir em maio grande número de marchantes de diversas paragens. Estes concursos têm grande encanto para o viajante que pode assim reviver as recordações de cada terra por onde passou. Além disso, na mesa do jogo e nas apostas, corre o ouro a rodo: fazem-se páreos fabulosos que afrontam os mais destemidos.
Estas coisas, o mascate gostava de ver para contá-las mais tarde nalgum ponto remoto, onde ele pudesse figurar como herói da história, no meio de alguma roda de bonitas muchachas.
Vendidas todas as fazendas, e apuradas as barganhas feitas pelo caminho, voltava o chileno a prover-se de uma nova carregação para continuar a vida nômade a que se habituara desde a infância. Essa locomoção constante era um elemento de sua existência; seu espírito superficial saciava-se logo das impressões de qualquer lugar, e carecia de uma diversão.
As pessoas, reunidas na varanda, pitavam o infalível cigarrito de palha, sorvendo a goles o mate chimarrão. A conversa, frouxa em começo, veio a cair sobre a gineta, que é juntamente com as histórias de briga e namoro o tema favorita da conversa dos gaúchos na campanha.
— Pois, senhores, é o que digo, exclamou o chileno. Nenhum será capaz de montar a égua que trago aí.
— Talvez seja ela tão chiquita, D. Romero, que um homem não a possa montar, e somente um gambirra, acudiu com ar sardônico um dos camaradas.
Os outros aplaudiram.
— Uma coisa é rir, amigos, e outra fazer, redargüiu o chileno.
— Pois sem dúvida que se há de montar, D. Romero, disse um invernista de São Paulo.
— Quer experimentar?
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.