Por Camilo Castelo Branco (1862)
Por parte de Baltasar Coutinho a paixão inflamou-se tão depressa, quanto o coração de Teresa se congelou de terror e repugnância. O morgado de Castrod'Aire, atribuindo a frieza de sua prima a modéstia, inocência e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre daquela alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade é que Baltazar nunca se explicara de modo que Teresa lhe desse resposta decisiva. Um dia, porém, instigado por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim à melancólica menina:
— É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a ouvirme?
— Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.
O desdém aborrecido desta resposta abalou algum tanto as convicções do fidalgo, respeito à inocência, modéstia e acanhamento de sua prima. Ainda assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade não poderia exprimir-se doutro modo, e continuou:
— Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as nossas casas se unam.
Teresa empalideceu, e baixou os olhos.
— Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradável?! — prosseguiu Baltasar, rebatido pela desfiguração de Teresa.
— Disse-me o que é impossível fazer-se — respondeu ela sem turvação — O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo pensasse em tal.
— Quer dizer que me aborrece, prima Teresa? — atalhou, corrido, o morgado.
— Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não devo ser esposa dum amigo a quem não posso amar. A infelicidade não seria só minha...
— Muito bem... Posso eu saber — tornou com refalsado sorriso o primo — quem é que me disputa o coração de minha prima?
— Que lucra em o saber?
— Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... E exato?
— É.
— E com tamanha paixão que desobedece a seu pai?
— Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade duma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava.
— Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!... Quem pensaria que os seus dezesseis anos estavam tão abundantes de palavras!...
— Não são só palavras, primo — retorquiu Teresa com gravidade — são sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se eu lhe mentisse, ficaria mais bem vista de meu primo?
— Não, prima Teresa; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
Ora olhe: não duvida declarar quem é o ditoso mortal da sua preferência?
— Que lhe faz saber isso?
— Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me ver vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo Baltasar, se o tivesse em conta de seu amigo intimo?
— Nessa conta é que eu o não posso já ter... — respondeu Teresa, sorrindo, e pausando, como ele, as sílabas das palavras.
— Pois nem para amigo me quer?!
— O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em diante meu inimigo.
— Pelo contrário... — tornou ele com mal rebuçada ironia — muito pelo contrário... Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir casada com algum miserável indigno de si.
— Casada!... — interrompeu ela. Mas Baltasar cortou-lhe logo a réplica deste modo:
— Casada com algum famoso ébrio ou jogador de pau, valentão de aguadeiros, distinto cavalheiro, que passa os anos letivos encarcerados nas cadeias de Coimbra...
Claro está que Baltasar Coutinho conhecia o segredo de Teresa. Seu tio, naturalmente, lhe comunicara a criancice da prima, talvez antes de destinar-lhe a esposa.
Ouvira Teresa o tom sarcástico daquelas palavras, e erguera-se respondendo com altivez:
— Não tem mais que me diga, primo Baltasar?
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.