Por Machado de Assis (1860)
— Quem sabe se me não engano? Ernesto foi sempre bom amigo. Talvez aquilo ainda seja necessário para livrar-me do casamento. É o que há de ser.
Esta idéia o levou a ir ter com o amigo. Achou-o a ler uma cartinha, que escondeu logo. Luís franziu a testa.
— Carta dela? perguntou ele.
— Não, respondeu Ernesto depois de alguma hesitação.
— De outra?
— De ninguém.
Luís mordeu o bigode mas conteve-se.
Seguiram-se cinco minutos de silêncio.
— Ernesto, disse enfim o bacharel, venho pedir-te uma explicação e um conselho.
— Caso grave? perguntou Ernesto sorrindo.
— Talvez.
Ernesto ofereceu-lhe um charuto, que o outro não aceitou. Novo silêncio que o bacharel foi ainda o primeiro a interromper.
— Começo pelo conselho, disse ele. Sabes que o tempo deu os seus frutos. Aquele furor que me causou a resolução de meu pai passou completamente. Encaro hoje o casamento com outra cara. Acho-me disposto a aceitá-lo como uma doce necessidade do coração. Que te parece?
— Que me há de parecer? disse Ernesto levantando os ombros.
— É verdade que as tuas idéias são opostas a esta; assim me disseste quando eu aqui vim há cinco meses pedir-te conselho. Em todo o caso, apesar de seres o que eu fui, sempre te considerei com mais juízo do que eu. Desejava portanto saber se faço bem em obedecer a meu pai.
— Sem dúvida.
— Devo então aceitar o casamento com ambas as mãos?
— Uma vez que te não repugna, é um dever.
Luís teve um movimento de alegria, que logo reprimiu. Ernesto começou a brincar com a corrente do relógio, com o ar de um homem que se não acha em posição demasiado cômoda. Houve um pequeno silêncio. Luís continuou:
— Agora a explicação. Em que estado pára...
Hesitou.
— O quê? disse Ernesto.
— Poupa-me dizer mais; creio que me entendeste.
Ernesto levantou-se, deu alguns passos na sala, e parou enfim defronte de Luís Fonseca. Olhou-o a fito durante alguns rápidos segundos, e enfim lhe disse:
— Luís, fizemos um dia uma coisa feia e perigosa; feia porque não era bonito ir perturbar o espírito de uma moça, com o único fim de zombar dela e comprar com isso alguns dias de vida dissoluta...
— Perdão...
— Perigosa, continuou Ernesto sem atender à interrupção do amigo, perigosa porque era arriscar eu próprio o sossego do meu espírito. Não me salvei do perigo; mas o único meio que tenho para compensá-lo é apagar o lado feio da aventura.
— Dizes então?...
— Que eu gosto de tua prima.
Luís levantou-se de um salto. Os dois rivais encararam-se longo tempo sem dizer palavra, até que Ernesto foi sentar-se tranqüilamente. Luís levantou os ombros e foi a ele:
— Felizmente para mim conheço as tuas idéias a respeito do casamento, e creio que não pretenderás...
— É justamente o contrário, interrompeu Ernesto; pretendo casar com ela. — Oh! mas isto é demais! exclamou Luís. Estás caçoando comigo, creio eu. — Falo sério.
— Mas então...
— O quê?
— Andaste em tudo isto infamemente.
— Perdôo-te porque não sabes o que dizes.
A estas palavras, replicou Luís com duas ainda mais fortes, as quais provocaram da parte de Ernesto uma tréplica vigorosa; Luís voltou à carga com mais energia; Ernesto recebeu-o com quatro pedras na mão até que depois de dizerem muitas coisas duras e feias um ao outro, separaram-se os dois, acabando assim a conversa e o capítulo.
CAPÍTULO VIII
Saiu Luís Fonseca disposto a fazer alguma estralada. A distância porém entre a casa de Ernesto e a sua foi bastante para lhe deitar água na fervura.
Não perdoou decerto ao pérfido, como ele dizia, nem se dispôs a derrear-lhe fácil vitória; mas a idéia do escândalo foi posta de lado. Meteu-se a noite de permeio, e no dia seguinte estava Luís mais tranqüilo.
Oh! mais tranqüilo não! O mísero sentia-se cada vez mais apaixonado; o amor tocava já ao delírio. Era-lhe absolutamente impossível assistir à felicidade do rival.
Mas como impedir-lha?
Ir contar tudo ao pai?
Aceitou este primeiro alvitre, mas logo abriu mão dele. O pai naturalmente daria razão ao outro, a quem estimava já.
Tentar arrancar o rival às boas graças da prima era tarefa escabrosa e difícil. Luís Fonseca deitou os olhos a todos os pontos do horizonte a ver se descobria um meio eficaz de derribar o rival.
Nenhum ocorreu.
Dois dias gastou nestas pesquisas infrutíferas.
No terceiro, estando a almoçar, e justamente ao meter o garfo no terceiro pedaço de bife, um súbito pensamento lhe alumiou o espírito.
— Eureka!
Estava achada a grande arma.
Luís preparou-se e foi à casa da tia. Fernanda recebeu-o com afabilidade, e a maior prova de que já nada sentia por ele foi a tranqüilidade que lhe ficara no coração. Nem uma saudade! nem um estremecimento!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quem boa cama faz... A Marmota, Rio de Janeiro, 1860.