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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Os maldosos poderão julgar levianamente que se trata de uma sociedade de festejos e bajulação a pessoas poderosas e influentes. Julgarão mal. Menelique crê na instrução, quer propagá-la, deseja transformar os seus cursos que o centro mantém em aulas profissionais, onde as crianças pobres e sem arrimo se eduquem, aprendam um ofício, de forma a poderem levar o fardo da vida com mais facilidade. Para realizar o seu ideal é preciso fazer o centro conhecido, preocupando a cidade; e, já que não temos milionários generosos que auxiliem os nossos Brooks Washingtons, ele emprega processos adequados.

Conhecendo o nosso meio, Menelique age de acordo com ele, procede de acordo com os seus gostos e vai mansamente realizando os seus projetos.

É um esforçado e abnegado que trocou as comodidades de primeiro escriturário da alfândega, pelas agruras de diretor de uma instituição, frequentada por mais de trezentas crianças, sem receber dos poderes públicos a menor subvenção pecuniária.

Ele me falou largamente dos seus projetos futuros, da criação de uma sucursal dos cursos do centro, fora da cidade, em que pudesse criar oficinas amplas, iluminadas, higiênicas, em que os seus discípulos pudessem adestrar-se nos vários misteres e ofícios.

Lembramos que se podia estender mais o seu já vasto plano, criando a aprendizagem agrícola, encaminhando atividades para a agricultura, inculcando nos espíritos o amor pela terra, de onde se pode tirar meios de vida com auxílio de processos racionais e aperfeiçoados.

Admirei Menelique, a sua constância, a sua tenacidade, o seu espirit de suit, qualidades de caráter tão diferentes das que estamos habituados a encontrar nos nossos homens e que eu não encontro em mim mesmo.

Menelique, é um esforçado, não desanima e vai vencendo os obstáculos opostos à realização dos seus ideais com habilidade de quem penetrou profundamente no nosso meio social. É um exemplo a imitar.

Correio da Noite, Rio, 6-1-1915.

A LEI

Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei.

Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.

O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.

Vê-se bem que na intromissão da “curiosa” não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.

Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.

Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei, os regulamentos, a polícia, os inquéritos, os peritos, a faculdade e berram: você é uma criminosa! você quis impedir que nascesse mais um homem para aborrecer-se com a vida!

Berram e levam a pobre mulher para os autos, para a justiça, para a chicana, para os depoimentos, para essa via-sacra da justiça, que talvez o próprio Cristo não percorresse com resignação.

A parteira, mulher humilde, temerosa das leis, que não conhecia, amedrontada com a prisão, onde nunca esperava parar, mata-se.

Reflitamos, agora; não é estúpida a lei que, para proteger uma vida provável, sacrifica duas? Sim, duas porque a outra procurou a morte para que a lei não lhe tirasse a filha. De que vale a lei?

Correio da Noite, Rio, 7-1-1915.

AS ESQUINAS

A questão da venda de jornais volta a ser ventilada e há a tal respeito um projeto no Conselho Municipal.

Os jornais, em geral, se insurgem contra a regulamentação desse comércio. Não vemos razão para semelhante procedimento.

São as folhas volantes artigo de comércio como outro qualquer e dessa mercancia diversas pessoas auferem lucros, às vezes mesmo fabulosos, como no caso dos distribuidores.

É verdade que o imposto sobre os pequenos vendedores viria dificultar a circulação dos jornais, mas continuar a exposição dos jornais, como se faz atualmente na via pública, tomando os passeios, é coisa que não depõe muito francamente para o nosso adiantamento.

Os gansos do Binóculo, é de estranhar que não tenham ainda dado o alarme... Acresce o fato de que tais lugares são vendidos por avultadas quantias, passam de dono a dono, como se fossem verdadeiras casas comerciais, para justificar um maior rigor na fiscalização de tal comércio.

Não se compreende que certa e determinada classe de mercantes goze de privilégios e não se pode compreender também que a rua, propriedade comum, patrimônio de todos, seja cindida, limitada aqui e ali, transformando-se certos espaços dela em propriedade de alguns.

Que o Conselho Municipal tem toda a razão em voltar as suas vistas para o caso, não há pessoa de bom senso que o negue.

(continua...)

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