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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Os marujos que o cercavam riam-se de o verem em tamanha azafama, comendo, emborcando os vinhos e gesticulando.

Terminada a refeição, como se lhe doesse deixar as victualhas que restavam, lançava á mesa olhares desejosos mas logo os retirou para os presentes que o Gama lhe offerecia constando de chocalhos e de contas rutilantes de crystal.

Com essas dadivas poz-se em terra o negro satisfeito seguindo, a correr, para a sua aringa de onde, pouco depois, tornava com uma multidão de parceiros, vindo uns agachados, como tigres, com desconfiança e medo, outros, mais atrevidos, caminhavam firmes, ostentando os seus limbos aguçados, as suas brutas adargas e as plumas com que se aformoseavam.

A todos mandou o capitão distribuir presentes e foram taes as mostras de alegria que deram e tão significativas as demonstrações de humanidade que os portuguezes acreditaram ter surgido cm terra de boa gente.

Fernão Velloso, homem d'armas, de estirpe nobre, muito dado a aventuras e grande bravateador, tanto que os vio reunidos com as suas mulheres que traziam as formas descobertas, com intenção que foi logo adivinhada e maliciosamente commentada, pedio ao capitão licença para acompanhal-os afim de ver a povoação que tinham e a vida que praticavam.

Consentio o Gama e, com os negros, partio o aventureiro formando planos faceis e na frota ficaram alguns invejosos da sua fortuna porque haviam avistado as mulheres que, não obstante a côr e os traços das feições grosseiras, tinham as seducções proprias do sexo.

Pelo cahir da tarde andava Paulo da Gama com dois bateis, á pesca, e Nicoláo Coelho dava guarda aos que recolhiam lenha ou mariscavam quando ouviram algazarra e babariso e logo avistaram o atrevido Velloso que tão contente partira sofrego, precipitado, fugindo pela encosta ingreme d'um outeiro.

O Gama, que andava com os olhos em terra, logo ordenou que acudissem ao mar homens armados e um batel largou da nau a remos acurvados mas, como o mancebo era jactancioso em contos e em prosapias, quizeram os companheiros divertir-se á sua custa e demoraram o auxilio para que maior fosse o seu tormento. Já o vozeiro dos negros atroava e indo Velloso, esfalfado, por o pé no batel que abicava, arremetteram os cafres ás pedradas e atirando os fimbos, pondo em alvoroço os homens que guarneciam o pequeno barco.

Vendo-os o Gama em perigo saio para defendel-os custando-lhe esse arrojo um ferimento em uma perna e ao mestre da sua nau e a dois marinheiros mais feridas de pouco risco.

Mas nem tão felizes foram os negros perfidos que saissem da traição incolumes porque ficaram alguns na praia alcançados pela pontaria dos besteiros.

Sentindo-se d’aquelle procedimento e estando já a frota corrigida ordenou o capitão a partida.

Fizeram-se as naus ao mar demandando o Cabo e começou a bordo a afflicção pelo terror que a idéa daquella passagem trazia aos corações. Não se tiravam os olhos do céu que se conservava sereno como se Deus quizesse levantar o animo áquella gente e o mar espelhava o céu, mas a oppressão continuava e, se o gageiro, posto nas gaveas, fazia um movimento, logo a maruja, sobresaltada, corria a cercar o mastro como, num perigo, as timidas ovelhas buscam o seu redil.

Uma onda de mais vulto que rolava era logo apontada como annunciadora de levadias e, se rangia um cabo, se estalava um madeiro logo estremeciam os homens assustados.

Só o Gama, sereno e firme no castello da nau, buscava o horizonte e, na tarde d'um sabbado, estando a olhar com desejo, vio terras escarpadas, reverdecidas de arvores e annunciou aos marujos o promontorio tenebroso.

Foi tamanha a alegria enxertada d'uma decepção feliz que, como se quizessem saudar aquella extrema de terra, assopraram, com furia, bozinas e charamellas espalhando uma ruidosa musica nos ares; outros acenavam com pannos, tomavam das driças as roupas que seccavam e, agitando-as, festejavam o socegado linde tão temido.

Quiz o Gama chegar com os navios áquella costa mas, tão contrarios sopravam os ventos que lhe frustraram todas as investidas. Desanimado de pôr o pé n'esse terreno para n'elle deixar um padrão fez-se ao largo seguindo ao longo da costa. Vingado, com tão inesperada fortuna, o terrivel passo alliviaram-se os corações do grande medo que lhes infundia aquelle rumo. Eram as columnas terriveis que se iam arredando do caminho, desaffrontando-o ás proas cortadoras.

Nem borrascas nem monstros — os vendavaes escondiam-se nas suas cavernas, os escarcéos pareciam domados e os monstros dormiam nos seus abysmos. Alli estava o sol pacifico e o céu continuava a acurvarse em abobada sobre as naus. Nem tão grossas arrebentavam as ondas, nem tão impetuosos eram os ventos e a mareja, desopprimida, emquanto as naus corriam, cantava saudando com as suas arias aquelle mysterio que apparecia propicio sem os horrores que lhe haviam emprestado as lendas. E, a todo panno, a frota proseguia empavesada.  

AO LONGO DA COSTA

(continua...)

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