Por Coelho Neto (1898)
Em As Sete Dores de Nossa Senhora, Coelho Neto revisita a tradição religiosa para narrar, com sensibilidade e lirismo, os sofrimentos de Maria ao longo da vida de Cristo. O texto destaca a dor materna e a dimensão humana do sagrado, aproximando o leitor da experiência emocional da personagem. Com linguagem rica, a obra une fé, arte e reflexão sobre o sofrimento.
As Sete Dores de N. Senhora
Os quadros d'As Sete Dores da Santíssima Virgem Maria, escriptos pelo Sr. Coelho Netto, são um mimoso volume de interessantes e amenas leituras religiosas, que, pela sua elegância e belleza, prendem e recreiam o espirito e captivam o coração.
O assumpto nada perdeu da sua natural majestade sob a penna delicada de tão abalisado litterato e aprimorado estylista, que o tratou com carinho, simplicidade e elegância de arte.
É um mimoso ramalhete colhido por mão de mestre no precioso jardim da litteratura, contornado de bellas imagens e ajustado cm finíssimas gazes de aprimorado estylo.
É, pois, esse um livro ao qual não regatearemos nossos francos elogios e o nosso IMPRIMATUR, e ao seu Autor com abundância de coração damos a nossa benção.
Rio de Janeiro, 13 de Maio de 1907.
J. CARD. ARCEBISPO.
I
A prophecia no Templo
Eram passados quarenta dias sobre o nascimento de Jesus, e, seguindo o preceito do Levitico, que prescrevia, ao fim d'esse prazo, a purificação das mulheres que gerassem varões, Maria e José dirigiam-se ao Templo, com o infante, levando o casal de rôlas e os cyclos de prata do resgate, que era quanto a Lei exigia dos pobres.
A manhan, luminosa e serena, fizera affluir ao Templo desusada concurrencia.
Os mercadores, sentados em tapetes e em cócedras, á beira das tendas ou diante dos. taboleiros, offertavam, com louvores, as suas louçainhas : télas de finíssima trama entresachada de ouro, estragulos de purpura sanguinea, turbantes entremeiados de perolas, saios de linho, abas de lan ; joias de ouro lavrado, pedras raras, armas de gume tão fino que cortavam no ar um fio de seda, lanças de pontas rendilhadas; talismans contra molestias, hervas dos montes que, maceradas em oleo, davam um balsamo efficaz na cura de toda a ulcera, philtros de virtude erotica ; bolos de farinha e mel, frutos acamados em folhas frescas; cordeiros alvos e pombos sem mancha para as offertas da Lei.
Ainda os havia paupérrimos: idumêus bronzeados, que levavam na ponta das tunicas feixes de raizes, seixos das correntes, ramos de flores murchas que reviviam a um fresco rorejo.
Um velho psyllo, de longas barbas alvas, tamborilando com duas varas no bojo de um odre, fazia dançar aos torcicollos uma negra serpente ou, espalhando no manto estendido fina arêa dourada, soltava por ella um escaravelho, e, attentamente, ia lendo o destino dos consultantes nos arabescos deixados pelas patas do insecto.
Muitos casaes entravam e pobres, enfermos, alrotando, descobrindo chagas que sangravam, cegos com os dedos nas orbitas vazias apiedavam narrando misérias.
Moedas tiniam, rolavam nas lages, e era um precipitar tumultuoso de maltrapilhos, de aleijados; barbarisando protestos, por vezes pugilatos entre os infelizes que se engalfinhavam com furor disputando um óbulo.
Maria, entrando no Templo, lembrou-se da sua adolescencia, dos annos felizes passados no claustro.
Ali haviam decorrido os dias melhores da sua vida sem dôres, sem pensares, só com o cuidado cm Deus. Ali chegara-lhe a noticia da morte dos seu velhos pais. Chorara longamente a sua orphandade, mas na companhia das donzellas consagradas ao devoto serviço, a que também fora dedicada, o consolo seccou-lhe as lagrimas sem, comtudo, apagar-lhe a saudade no coração. Todavia a certeza de que os dois velhinhos, tão meigos, tão justos, sempre fieis á Lei, teriam recebido o premio eterno do Senhor, abrandara-lhe o soffrimento d'alma.
D'ali, sem conhecimento da vida, ignorante de tudo, sahira para os esponsaes, começando a soffrer desde a hora vesperal em que, num afogueado morrer do sol por traz das collmas de Nazareth, estando a orar junto á janella, que um sycomoro empanava de folhagem, vira, subitamente, a casa illuminar-se, encher-se de perfume, e deram seus olhos deslumbrados com a belleza mystica de um anjo, alvo, fúlgido como de neve, louro como coberto de sol, tendo á mão uma vara florida, que lhe falara em nome de Deus, annunciando o mysterio da grande Genese.
A Virgem deteve os passos, cançada, sorrindo ao Filho que dormia á sombra do véu fino que lhe descia da cabeça envolvendo-lhe o busto.
José acercou-se do grupo e ficaram, um momento, contemplativos.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.