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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Eu puxei do bolso a fotografia que me dera a Jeannite e confrontei-a com o cadáver.

Não podia haver dúvida.

Era o mesmo, sem tirar nem pôr.

E a graça é que a fotografia estava perfeitamente de acordo com as primeiras informações que no ponto das Barcas me dera o carregador, “magro, cabelo preto, barba à inglesa”, e [pela] elegância é de supor que usasse polainas e chapéu alto.

Detive-me defronte daquele cadáver, a fazer algumas considerações a respeito dele.

“Ali estava para sempre inanimado o homem que minha mulher preferiu a mim e por quem trocou a sua tranqüilidade, o seu futuro e a sua honra! E fossem lá compreender as mulheres! Por que razão aquele tipo de barbas inglesas, aquele desordeiro vulgar e de más entranhas sem dúvida, havia de merecer mais do que eu?... Por quê? Por ser bruto? Não! Por ter mais talento? Não creio... Ele não seria capaz de escrever estas cartas... Por ser mais honesto? Impossível! Por que seria então? Ainda se fosse rico, mas qual, segundo informações que me deram mais tarde, só lhe encontraram nas algibeiras dous níqueis de tostão, uma caixa de fósforos, algumas cartas de namoro, algumas contas, um pente e três cigarros. Por que pois teria minha mulher o preferido a mim?

“Ah! Quem poderá explicar esses mistérios e essas aberrações do coração feminino! Quantas vezes essas insensatas não largam de mão o ouro verdadeiro para se lançarem sobre o mais ordinário dos metais!...”

Fazia eu tais considerações, quando o meu bom amigo tocou-me no ombro.

- Então! - disse ele - queres agora ficar aí, defronte desse corpo?

- A que horas é o enterro? — perguntei.

- Deve ser daqui a uma hora. Às quatro.

- Pois eu espero. Quero acompanhá-lo até ao cemitério, quero vê-lo descer à sepultura, cair-lhe sobre o peito a terra e a cal, e só depois disso respirarei com franqueza.

- Então, adeus — disse-me o amigo. Deixo-te, que ainda tenho que fazer.

- Adeus. Obrigado.

O amigo saiu e eu fiquei ao lado do defunto. Esta disposto a não abandoná-lo um só instante.

“Depois do enterro ou talvez amanhã” — resolvi comigo — “tratarei de continuar nas minhas pesquisas. Minha sogra não quer falar, mas eu hei de descobrir onde se esconde a filha!... Em último caso vou ter com a Jeannite e peço-lhe novas informações.”

Mas, apesar de ter ali, defronte dos olhos, aquele cadáver, que era a confirmação silenciosa da fotografia e das afirmações do sujeito que o vira com minha mulher, as palavras do meu outro amigo não me deixaram a cabeça!

“Está aqui na Casa de Correção escondido; temos ordem superior para não consentir que ele se comunique com pessoa nenhuma e para declarar que ele foi para a Misericórdia. Amanhã hás de ver isso mesmo nas notas policiais...”

E como se poderia explicar o engano tão grosseiro [em] que se achara o meu outro amigo? Como explicar igualmente a prisão de minha sogra? Onde estaria a minha mulher?

Eram essas interrogações que se erguiam dentro de meu cérebro, quando vi chegar um homem, acompanhado por dous serventes, o qual apontou para o cadáver, e disse.

- Carroça com ele!

- Perdão - intervim eu, chegando-me para o sujeito. - Saberá dizer-me, caro senhor, de quem é este cadáver?

- Do Malta.

- Tem certeza que é Malta?

- Malta ou Mattos... - respondeu o sujeito. - Também não sei com certeza. Se não me engano é Castro. Castro Malta ou Castro Matta. Pelo nome não se perca!

“Não se perca! Mal sabia o desgraçado o que havia de sucede”; considerei comigo e, tornando ao sujeito, perguntei-lhe se não sabia que espécie de homem fora esse Malta ou Mattos.

- Uma espécie de vagabundo!

- Mas não tinha profissão?

- Qual! Vivia da jogatina.

“Ora essa!” - considerei eu. – “O Castro Matta de que me falaram os vizinhos, quando eu saí a procurar minha mulher, era encadernador, e constou-me que empregado em uma das melhores livrarias da Corte.”

Cada vez mais intrigado, fiz ainda algumas perguntas ao sujeito e, vendo que não obtinha melhores esclarecimentos, despedi-me dele e dispus-me a acompanhar o enterro.

Eram cinco horas da tarde quando saiu o corpo da Santa Casa da Misericórdia, dentro de um carro negro, onde se via uma cruz pintada de branco. Tomei um tilbury e acompanheio sem dar a entender que o fazia.

A carroça tomou a direção do Cemitério de São Francisco Xavier; eu atrás.

Ia triste, como se acompanhasse o enterro de um parente ou de um amigo; sentia até vontade de chorar, quando o meu tilbury deslizou surdamente pela areia do Campo.

E a carrocinha negra, miserável, lá ia na frente puxada por um burro. De vez em quando, nas curvas do caminho, eu a perdia de vista, mas daí a pouco divisava de novo o chapéu alto do gato-pingado* e, então, fechava os olhos para o não ver.

(continua...)

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