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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando à viúva um legado que lhe assegurava o resto da vida.

Júlia Guterres reuniu o que possuía, vendeu alguns bens que lhe não convinham, alugou o prédio em que morara com o marido, dispôs de alguns escravos, comprou um belo chalézinho na Tijuca, e meteu-se aí, com a intenção de envelhecer tranqüilamente.

Foi nessa casa que ela travou relações de amizade com Gregório. Viram-se os dois à primeira vez por ocasião do batizado da filha de uma amiga. Gregório teria então vinte anos, gozava de alguma fama de estroina e figurava na vida romântica de uma tal Olímpia, a quem o leitor mais tarde virá a conhecer perfeitamente.

Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o que queria; tudo nessa ocasião parecia enfastiá-la profundamente. Vestiu-se, mas não teve a coragem de sair; abriu um livro e não leu uma página sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela janela.

Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Gregório a procurava.

— Não estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor.

Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo:

— Que idéia!...

E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalêzinho da viúva compunha-se de poucas peças. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar, um gabinete de trabalho e mais dois ou três pequenitos cômodos de utilidade secundária.

Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupação de gosto. Desde o jardim, à entrada, que se mostrava logo sentimento artístico na escolha e colocação dos jarros e das estátuas; sentia-se a mão caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as grades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente pelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo.

O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando pequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalêzinho alegre, a rir por entre a exuberância da verdura, e todo ele enfeitado de cores e arabescos, ao sabor particular das chácaras fluminenses; sabor que resulta naturalmente da fisionomia característica das paisagens da Corte.

Quem, com efeito, atravessa as províncias do norte do Brasil e procura compreender o caráter quente das suas múltiplas paisagens, onde predominam os rios e as planícies, chegando ao Rio de Janeiro não se pode furtar à estranha mas agradável impressão que produz ao espírito esta bela cidade, com a sua opulência de palmeiras, a sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece por toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se vão perder no céu por entre nuvens.

Gregório penetrou na sala de Júlia, tomado já de certo desânimo: ele há tanto fazia por agradar àquela mulher, e ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe criança e a rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas.

— Meu amigo! disse-lhe uma vez a viúva; Q senhor perde o seu tempo! já não vivo de ilusões! passou a época dos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que não tenho absolutamente a quem dar satisfação de meus atos!

— Mas quem deseja escravizá-la? perguntou em resposta, Gregório, procurando pôr uma intenção sutil nas suas palavras. Quem é?

— Quem? interrogou ela, abrindo para o moço apaixonado seus belos olhos de cor híbrida. Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande lá! Tenho muito medo destes inocentes!... parece que não são capazes de quebrar um prato, entretanto...

E fazendo um gesto de graciosa impaciência:

— Homem menino! mudemos de conversa! Falemos antes de D. Olímpia...

Gregório fez que não ouviu este nome e insistiu em que a viúva acabasse a sua frase.

— Já nem me lembra o que queria dizer...

— E até onde pode chegar o espírito da tirania! Bem! não a importunarei mais! Adeus.

— Vai suicidar-se ou vai para a casa de Olímpia?! perguntou a viúva, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que preciso preparar o sentimento!

— Não me fale desse modo! Para que há de fingir aquilo que não é?! Sei que a senhora tem muito e muito coração! Não se queira fazer indiferente e cínica, quando possui aliás tesouros de amor e de ternura...

— Mau!... replicou ela; o senhor vai por mau terreno...

— Por quê?...

— Porque já se tinha despedido e deixa-se ficar.

— Nesse caso...

— Adeus.

— Até quando, ingrata?...

— Até à primeira ausência da lua.

E a viúva fechou a porta com uma risada.

(continua...)

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