Por Aluísio Azevedo (1884)
— O coração de uma mulher nas minhas condições, disse, medindo as palavras e recitando, como se tivesse os períodos decorados — não é coisa que se conquiste assim com um simples casamento: não haveria nada melhor! O senhor, se quer ter a minha confiança plena, a minha dedicação, a minha ternura, faça por merecê-las... Não será de certo com esses modos e com essa cara fechada, que conseguirá abrir-me o coração! Eu, até, se soubesse que o senhor havia de se portar desta forma, não o teria convidado para almoçar em minha companhia... O senhor fala de farto!... Em vez de agradecer à sua boa estrela a bela ocasião que lhe faculto para principiar a conquistar-me, põe-se nesse estado e parece disposto a incompatibilizar-se comigo por uma vez!
Borges ouviu tudo isso, vergado na cadeira, sem um movimento, os olhos corridos, o rosto anuviado por uma funda expressão de mágoa resignada. Quando a mulher terminou, ele estendeu-lhe um olhar de súplica e tentou agarrar-lhe as pontas dos dedos.
Filomena retirou a mão com um movimento rápido, e voltou-se para o outro lado, dando as costas ao marido. Este arrastou-se com a cadeira para junto da esposa, e, em segredo, a voz medrosa e submissa, perguntou-lhe o que então queria que lhe fizesse?...
— Tudo! respondeu Filomena na mesma posição, a sacudir uma perna, que havia dobrado sobre a outra.
— Mas tudo, como?... perguntou Borges, tentando acarinhá-la.
Ela ergueu-se, demovendo o corpo, e acrescentou, encarando-o:
— Ouça! — Por ora, meu amigo, pertenço-lhe de direito, porque nos casamos, e isso tornava-se inevitável na situação em que o senhor me achou; mas
declaro-lhe abertamente que só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor tiver conquistado o meu amor à custa de dedicação e de perseverança! Só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor se houver cabalmente habilitado para isso! Compreende, agora?...
O marido deixou cair a cabeça e ficou a pensar, enquanto a mulher atravessava o gabinete, depois ~ saleta, e fora assentar-se no divã do salão. No fim de cinco minutos, Borges levantou-se resolutamente e foi ter com ela:
— De sorte que a senhora tenciona continuar com a porta do seu quarto fechada, até que eu...
— A porta e o coração, acudiu Filomena — até que o senhor os consiga abrir com os seus desvelos!
— Quer então que lhe faça a corte?...
— De certo.
— Pois tomo a liberdade de declarar a V. Ex. que foi justamente por não ter jeito para essas coisas ~ que me casei! Se eu tivesse gênio para atirar-me aos pés de uma mulher e fazer-lhe a minha declaração com palavreados de romance, se eu tivesse queda para galante, não procuraria uma esposa, bastava-me ter uma...
Filomena não lhe deu tempo de concluir a frase. Ergueu-se num só movimento, e, depois de medi-lo de alto a baixo com um olhar de rainha ofendida, afastou-se lentamente em silencio, os passos firmes, a cabeça altiva. Borges correu logo atrás dela e segurou-lhe uma das mãos.
— Solte-me! exclamou Filomena, arrecadando o braço.
E fugiu para a saleta, atirou-se sobre o divã em que o marido passara a noite, e aí rompeu a soluçar com um frenesi histérico.
Borges ajoelhou-se-lhe aos pés e cobriu-lhe as mãos de beijos e de lágrimas.
— Não leves a mal aquilo, minha santa! Desculpa, exclamou ele, escondendo o rosto no colo da esposa. Reconheço que não fui muito delicado excedi-me, mas não sei onde tenho a cabeça — não estou em mim! É que me pões doido com tuas palavras! Oh! mas não fiques zangada, não chores; tudo aquilo prova justamente o bem que eu te quero, minha vida, minha mulherzinha do coração!
Filomena não respondia e continuava a chorar, toda prostrada no divã: a cabeça vergada para trás, o rosto encoberto por um lenço de rendas, que ela segurava em uma das mãos, ao passo que abandonava a outra aos beijos apaixonados do marido. Agora os soluços eram espaçados e mais secos, como os últimos rumores de uma tempestade que acalma.
De repente, ergueu-se. Fitou por instantes o marido, que jazia a seus pés ajoelhado, a encará-la lacrimoso e súplice; depois estendeu os braços, deu-lhe um empurrão e fugiu para o seu quarto, fechando-se logo por dentro, violentamente.
O Borges ficou meio assentado e meio deitado no chão, amparando-se às mãos e aos pés.
— E esta — balbuciou ele dai a pouco, erguendo-se de mau humor. É gira ou não é gira?...
E pôs-se a percorrer todo o pavimento, rondando o quarto fechado da mulher, como um gato que fareja o guarda-petiscos... No fim de uma hora de exercício, indo e revindo incessantemente, de lá, para cá, as mãos nas algibeiras das calças, o olhar cravado na esteirinha do soalho, Borges estacou no meio do salão:
É de mais! pensou ele. — É para um homem perder a cabeça!
E atirou-se prostrado à cadeira de balanço, passando uma revista mental a todas as contrariedades e decepções que o afligiam desde a véspera.
— Ora aí estava para que se tinha casado!... Passar por tudo aquilo!... Ele! Ele, que em sua longa vida de solteiro nunca amargara uma noite tão má e um dia tão levado da breca! — Quem te mandou, João Borges, meter em camisa de onze varas?... Maldito fosse o Guterres, que o levou à casa da defunta Clementina! Antes tivessem ambos quebrado as pernas nessa ocasião! Maldito Guterres!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.