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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Todo ele ia como a dizer no seu silêncio indiferente e egoísta: “A mim tanto se me dá seis como meia dúzia ...morar com Pedro ou morar com Paulo, tudo para mim é a mesma coisa, desde que, em troca do — meu dinheiro — , me apresentem um quarto limpo e a comida a horas certas. Se dez anos continuasse aqui Mme. Brizard, dez anos ficaria eu na Rua do Resende; mas, uma vez que se muda para Santa Teresa — Adeus! vou bater a outra freguesia... o que por aí não faltam são casas de pensão.”

O Paula Mendes, ao entra pouco depois, recebeu em cheio a notícia de a família Coqueiro ia deixar a casa e que por conseguinte era preciso que ele saldasse as suas contas.

Mas o rabequista não tinha dinheiro na ocasião. — Logo que o tivesse havia de pagar integralmente.

Os locandeiros não estavam por isso, já lhes bastavam os calos do gentleman e do Melinho! E , depois de uma troca agitada de palavras, Mendes propôs deixar o piano, ficando-lhe o direito de resgatá-lo mais tarde com a devida importância.

Mme. Brizard queria do dinheiro e não instrumentos de música! O Sr. Paula Mendes que vendesse o piano e liquidasse depois as suas contas!

Assim foi. O rabequista saiu, e, quando à tarde voltou à casa de pensão, trazia consigo um homenzinho de barbas compridas, que fechou o negócio por quatrocentos mil réis. Mendes pagou o que devia, fez tristemente as suas malas, e afinal se retirou de cabeça baixa e mãos cruzadas par trás.

César, que o fora espreitar ao corredor, voltou à varanda, dizendo espantado que ele chorava ao descer as escadas.

— Deixa-o lá, menino! Resmungou a locandeira, e tocou a sineta, chamando para a mesa.

* * *

O jantar já não tinha o caráter de uma refeição de hotel, em mesa-redonda.

Agora compareciam apenas cinco pessoas: Amâncio, Amelinha, Mme. Brizard, Coqueiro, César e o Dr. Tavares. O guarda-livros, esse continuava a não comer em casa.

Mme. Brizard suspirava à vista dos lugares vazios.— Oh! que aperto de coração lhe fazia aquilo! Não podia resistir a tanta contrariedade ao mesmo tempo!...

Pelo corredor do jantar, falou a respeito de Nini, queixou-se de saudades. Já à sobremesa, recrudesceram-lhe as ternuras maternais, vieram-lhe nostalgias, uma lágrima saltou-lhe do olho esquerdo.

Chamou César para junto de si, abraçou-o e beijou-o repetidas vezes e ficou a passar-lhe a mão pela cabeça. Um silencioso constrangimento se apoderou das pessoas presentes; depois, ainda com a voz quebrada de comoção, ela pediu ao Coqueiro que se não descuidasse de cobrar o que o Lambertosa e o Melinho ficaram a dever. - Agora precisavam muito e muito de dinheiro!...

Mudaram-se no dia seguinte. Amâncio ia muito incomodado, amanhecera pior, quase que não podia mexer com as pernas; todos lhe profetizavam, entretanto, rápidas melhoras em Santa Teresa. O cômodo que lhe destinaram era da casa o mais espaçoso e arejado.

Amelinha não o desamparava, já não escondia até os seus carinhos, chegava-se abertamente para o rapaz, como se fora casada com ele. Às vezes dizia-lhe segredos na presença do irmão ou da francesa; prestava-lhe pequeninos serviços amorosos: levantar-lhe, por exemplo, a gola do fraque, se fazia frio; abotoar-lhe o colarinho, se estava desabotoado; atar-lhe a gravata, se o laço se desmanchava; chegar-lhe para junto a escarradeira se Amâncio queria fumar.

Em Santa Teresa esses desvelos multiplicaram-se, aí já era a menina quem lhe metia os botões na camisa e as fivelas no colete, quem lhe escovava a roupa e o chapéu, quem lhe punha o perfume no lenço e lhe dava corda ao relógio, e, quando fazia bom tempo e o rapaz tentava um passeio pelo morro, era ela quem corria a lhe trazer a bengala ou o chapéu-de-sol, perguntando muito solícita se ele não se esquecera dos charutos e dos fósforos, sem já tinha lenço, se levava dinheiro.

Mas, às vezes, rezingava, quase que ralhava com o estudante. Fazia-lhe censuras, tomava-lhe contas de umas muitas coisas: se Amâncio passara por tal rua, se estivera durante a ausência a passear sempre ou se encontrara alguém porventura em alguma parte; quando lhe sentia cheiro de álcool queria saber o que o rapaz bebera.

Amélia, enfim, se derramava por todo ele, sem Amâncio dar por isso; invadiao sutilmente, como um bicho que entra na carne.

A nova residência punha-os muito mais juntos, muito mais unidos do que a da Rua do Resende. Os quartos eram pequenos, chegados uns dos outros; havia um sótão com escadaria para a sala de jantar. Amâncio morava aí, sozinho.

Tinha de seu uma alcova e um pequeno gabinete de trabalho; janelas para o nascente e para o ocaso, despejando sobre o jardim.

Embaixo, então, era a sala de visitas, a de jantar e mais quatro cômodos, sem meter os quartos da criadagem, a cozinha, a despensa e o banheiro. Num daqueles cômodos ficou o João Coqueiro com a mulher; noutro Amelinha; noutro o guarda-livros, e o Dr. Tavares no último.

(continua...)

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