Por Lima Barreto (1921)
– Por ora, não consinto, porquanto devo antes pedir, a esse respeito, as luzes de um qualquer notável consultor jurídico.
Careta, Rio, 8-10-1921.
O FABRICANTE DE DIAMANTES
Conhecem os senhores naturalmente o grande escritor inglês -Wells.321 Certamente, que sim. É hoje riquíssimo com o produto dos seus livros curiosos e próprios; mas teve começos bem difíceis. Foi caixeiro de uma casa de fazendas; foi professor de colégios vagabundos; publicou livros de fancaria; mas a sua alma, tal qual se revela na sua variada obra, da qual conheço uma pequena parte, ficou sempre cheia de ironia dolorosa, de sonho, de piedade e de sentimento do infinito. Ele tem um conto – O fabricante de diamantes (The diamond maker) que os franceses traduziram com o título – La Folie du diamant, – de cuja tradução me sirvo aqui, onde se encontram profundos ensinamentos morais para quem quer seguir honestamente uma idéia. É mesmo uma fábula.
Trata-se de um rapaz que, tendo adquirido conhecimentos de física, química e mineralogia, encasqueta-se-lhe na cabeça que há de fabricar diamantes.
Ele conta ao próprio Wells ou a alguém por este a sua dolorosa história, nas proximidades da ponte de Waterloo, em Londres, de noite, dentro de uma “obscuridade indulgente” que os furta de ver a sujeira do Tâmisa. São desconhecidos que se encontram no banco do cais. Trocam frases banais e o procurador de Wells, que a princípio não queria atende-lo, acaba conversando com o estranho personagem longamente.
Tinha este um aspecto fino e não era feio, embora estivesse muito pálido e manifestasse miséria. Estava sujo, barbado e cabeludo.
Tudo levava a crer que ele exercia uma modesta profissão, por isso, quando ele diz ao seu interlocutor que se deve atirar tudo fora, nome, fortuna, posição, contanto que não se renunciasse à sua ambição, o espanto que causa a Wells, ou a seu procurador, é extraordinário. Se ele renunciasse à realização de sua idéia, para não sacrificar a sua existência material, não teria durante toda a vida senão remorsos. Pouco a pouco. então, ele conta a sua história. Mostrou ao outro, em primeiro lugar, um verdadeiro seixo que tirou de um “breve” pendurado no pescoço.
– Sabe o que é isto? fez ele passando a pedra ao outro. Este reconhece na tal espécie de seixo alguns sinais de diamante bruto, mas, cheio de dúvidas, à vista da miséria do portador, pergunta: – Você o achou?
– Não; eu o fabriquei.
O espanto do representante de Wells cresce e insiste na pergunta:
– Como e onde você o achou?
O estranho industrial responde com toda a firmeza:
– Eu o fabriquei.
Para não alongar, salto muitos detalhes, como já saltei outros, e resumo a história. O industrial de gemas preciosas, tendo os conhecimentos a que já aludi, e a idéia na cabeça, com uma pequena fortuna, pôs-se resolutamente a tornar o seu sonho realidade.
Comprou instrumentos, aparelhos, etc.; mas, bem depressa, as suas experiências devoraram uma boa parte dos seus bens. Resolveu diminuir os seus gastos pessoais, para empregar tudo o que pudesse na execução de sua idéia. Ele trabalhava só e às escondidas, a fim de que ninguém pudesse participar dos lucros que a sua indústria havia de dar, por certo. Talvez houvesse outros motivos...
Desde os dezessete anos, e estava ele com trinta e dois, que havia estudado as condições de fabricação do diamante. Tendo achado o processo seguro de fabricá-lo, não podia renunciar faze-lo. Estava na maior miséria quando achou os meios necessários para obter um diamante de verdade e não pó ou cristais microscópicos, como vários sábios tinham já obtido. Mas, para obter um diamante de tamanho razoável, era preciso tempo, fator indispensável com que se deve contar para a cristalização.
Calculou em dois anos o tempo necessário para realizar o que queria. Tinha que ter o forno aceso dia e noite; estava sem recurso algum. Que fazer?
Então ele conta a sua triste odisseia:
“Não posso dizer-vos todos os expedientes a que fui reduzido enquanto fabricava diamantes. Vendi jornais, vigiei cavalos, abri portões. Durante semanas fiz recados. Fui empregado como ajudante de um vendedor ambulante, que possuía uma carrocinha de mão e eu apregoava a mercadoria, etc., etc.”
Chegou até a mendigar, para comprar combustível, com que alimentasse o fogo do seu forno mágico.
Afinal, um belo dia, quebra o cadinho e encontra diamantes. Quer vendê-los, mas ninguém acredita que sujeito sujo possa possuir diamantes e muito menos fabricálos. Quando tenta fazer negócio, logo os mercadores julgam que se trata de um ladrão e fazem gestos expressivos de que vão chamar a policia. Ele foge e, assim, leva errabundo, sujo, esfomeado, a vagar pelas ruas de Londres, maltratado por todo o mundo, com uma riqueza dependurada no pescoço.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.