Por Aluísio Azevedo (1882)
Teresa nesse dia apareceu ao marido muito mais expansiva e risonha. Todavia, um espírito observador teria notado que a sua alegria era fingida e que toda aquela expansão encobria algum projeto traiçoeiro.
O comendador, às horas do chá, queixou-se de que estava indisposto e recolheu-se ao quarto. Teresa não lhe abandonou a cabeceira da cama, senão quando o doente declarou que precisava ficar só.
No dia seguinte, na ocasião em que a esposa lhe foi dar os costumados bons dias, ele a encarou de modo estranho e disse-lhe, com uma resolução que Teresa lhe conhecia:
— Veja ali o papel e a pena!
— Quer escrever?... perguntou a manhosa, fingindo grande solicitude. Não vá isso lhe fazer mal!...
— Não sou eu quem tem de escrever; é a senhora! Vamos! faça o que lhe digo!
A porta do quarto estava previamente fechada. Teresa foi buscar o que o marido lhe ordenara.
— Bem, disse o velho, estendendo-se no leito; agora escreva o que lhe vou ditar.
— Para quê?! perguntou Teresa, empalidecendo.
— Mais tarde o saberá... Alguém duvida que a senhora seja uma esposa virtuosa e eu desejo provar o contrário. E um capricho da velhice ou talvez uma fantasia da enfermidade.
— Estou às suas ordens, balbuciou a mulher com a voz trêmula. — Nesse caso faça o favor de escrever: "Meu caro Luiz".
Teresa sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo; quis opor qualquer razão à ordem do marido, mas não encontrou uma palavra.
— Escreveu? perguntou ele.
— Está escrito, respondeu ela; mas confesso-lhe que não compreendo o que tudo isto quer dizer...
— Nem é necessário, afirmou o comendador tranqüilamente. E continuou a ditar: 'Estou por tudo o que desejas..."
Teresa hesitou.
— Então?!... reclamou o marido. A senhora escreve ou não escreve?!
— Mas o senhor exige de mim um sacrifício superior às minhas forças; eu não sei a quem isto será dirigido!...
— A senhora sabe perfeitamente... Continue!
— Não! disse ela; não posso continuar! O senhor com certeza delira sob a influência da febre!
— É possível... disse o velho sorrindo ironicamente. Pode ser que tudo isto não passe de um delírio... em todo caso, a senhora há de escrever o que lhe estou ditando ou me obrigará a tomar resolução mais séria!
— Mas para que exige o senhor que eu escreva semelhante coisa?!
— Já lhe disse que mais tarde o saberá! Por enquanto basta que me obedeça!
E o comendador, possuído de inesperada energia, levantou-se de um salto da cama e, segurando a mulher por um dos pulsos, exclamou arremessando-a contra a mesa:
— Escreva, ou eu a mato aqui mesmo!
— Socorro! gritou Teresa.
— Pode gritar à vontade, bramiu ele. A única pessoa que está em casa é o Jacó, e esse não se importará com os seus gritos!
— Nesse caso é melhor que o senhor me dê logo cabo da existência, em vez de obrigar-me a sofrer desta forma!
— Nessa não caio eu! exclamou o marido. Hei de amarrá-los, um ao outro, e tanto me bastará para minha vingança! No dia em que qualquer responsabilidade os unir, estarei mais que vingado, porque vocês dois, miseráveis, hão de odiar-se em breve! e cada um se encarregará então de punir o companheiro de crime! — Não o compreendo! disse a mulher, afetando grande surpresa.
— Não seja hipócrita! gritou o velho procurando reaver o seu sangue frio. Já sei de tudo. Ele espera uma resposta sua para remeter o veneno com que a senhora me tinha de assassinar!
— Valha-me Deus! exclamou Teresa. Isso é uma terrível calúnia!
— Pois se é calúnia, escreva; que nesse caso a sua carta lhe servirá de defesa...
— Mas como hei de eu escrever uma coisa que não sinto?!— Não me interrogue, porque não estou disposto a dar-lhe explicações. A senhora, ou escreve o que lhe vou ditar, ou não sairá viva deste quarto!
— O senhor não pode dispor assim de minha vida!
— E poderia a senhora, por acaso, dispor de minha honra como dispôs?
— Eu não o desonrei!
— Veremos agora. Escreva!
— Pois escrevo! O senhor ficará convencido de que sou inocente. O comendador ditou então:
— "Estou por tudo o que me propuseste. Manda o frasquinho e..."
Não faço semelhante coisa, exclamou Teresa, arremessando a pena e levantando-se com ímpeto.
— Pois farei eu... disse o comendador, tomando o lugar que a mulher acabava de deixar. E gritou para fora: — Ó Jacó!
O criado bateu à porta.
— Abre e entra, respondeu o amo.
Ouviu-se ranger a fechadura, e em seguida surgiu no aposento o respeitável vulto do velho fâmulo.
— Tens de arranjar um portador para este bilhete, ordenou-lhe o comendador. Já sabes do que se trata. Recomenda que esperem pela resposta e entrega-me logo que chegar.
E voltando-se para a mulher, acrescentou:
— A senhora não sairá daqui enquanto não vier a decisão!
Teresa atirou-se aos pés do marido, a soluçar.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.