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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Muito; como não pode imaginar! 

Aurélia serviu de madrinha à Adelaide, e Seixas foi obrigado a assistir a esse casamento, que desdobrava-lhe por assim dizer diante dos olhos um passado a que ele em vão tentava subtrair-se. Ali estavam juntas, diante do altar, duas mulheres a quem ele traíra sucessivamente, e não arrebatado da paixão, mas seduzido pelo interesse. 

Quando absorto em suas cogitações, abandonava-se à melancolia daquelas reminiscências, Aurélia que se aproximava, murmurou-lhe ao ouvido: 

- Mostre-se alegre. Quero que todos, mas principalmente esta mulher, acreditem que sou feliz e muito. O senhor deve-me ao menos esta ridícula satisfação em troca do que roubou-me. 

Tomando o braço de Seixas, e reclinando-se com esse voluptuoso orgulho da mulher que se rende a um imenso amor, dirigiu-se à porta da igreja onde a esperava o seu carro. 

Nesse momento, como durante a noite em casa do Amaral, não houve quem não invejasse a felicidade do par formoso que Deus havia acumulado de todos os dons, de formosura, de graça, de mocidade, de amor, de saúde e de riqueza. 

Tinham tudo isto, e não passavam de dois infelizes! Essa festa alegre e aparatosa, ninguém imaginava que suplício era para essas duas almas, que estavam queimando-se nas luzes da sala e dilacerando-se nos sorrisos que desfolhavam dos lábios. 

No dia seguinte, domingo, Aurélia deixou-se ficar em seu aposento, e até quarta-feira não viu o marido. 

D. Firmina, nem os fâmulos, desconfiaram do fato, embora suspeitassem de algum estremecimento entre os noivos. 

Como nessas ocasiões, o marido e a mulher encerravam-se cada um de seu lado; as pessoas da casa, ignorantes do interdito a que fora condenada a câmara nupcial, presumiam que eles se correspondessem por essa comunicação interior. 

Estas esquivanças de Aurélia repetiram-se muitas vezes daí em diante; Seixas percebeu que ela o evitava, e desconfiou que sua presença começasse a importuná-la. Não se enganava. Desde que a moça não se achava mais em si a irritação e o sarcasmo, em que a princípio se deleitava seu coração, a aproximação do marido a oprimia. 

Seixas não a contrariava. Conservando-se em casa ao alcance da voz e ao aceno da mulher, poupava-lhe o desgosto de o ver. 

Entrava isso na resolução que havia tomado, mas não era sem grande esforço e luta acérrima, que obtinha de si permanecer ao lado dessa mulher para a qual se havia tornado, ele o sentia, verdadeiro flagelo. 

Uma razão poderosa o retinha, devemos supor, e tão forte que subjugava a todo o instante a revolta de seus brios, magoados pela aversão cheia de desdém da qual era alvo. 

Desse tempo data a agitação em que laborou ele à busca de um recurso para subtrairse à terrível colisão. Todas as idéias que lhe sugeria seu espírito alvoroçado, ele as aceitava com sofreguidão, para logo as rejeitar com desânimo. 

Afinal decidiu-se. Antes de ir à repartição procurou Lemos, com quem só de passagem se encontrara depois do casamento. O velho recebeu-o com o seu modo folgazão: 

- Que honraria, meu amigo! Esta pobre casa não o merecia! 

- Tinha necessidade de falar-lhe! respondeu Seixas. 

O velhinho piscou os olhos. Ele adivinhara que o moço não o tinha procurado àquela hora para fazer-lhe uma visita de cortesia. 

- Desejava consultá-lo, continuou Seixas hesitando. Consta-me que as apólices vão baixar consideravelmente, e que seria um bom negócio vendê-las neste momento para comprá-las mais tarde, talvez daqui a dois meses. 

- Não é mau; porém há outro melhor neste momento, disse Lemos. 

- Qual? 

- Vender libras esterlinas. 

- Não as possuo. 

- Isso não impede. 

- Não entendo. 

- Venda a entregar no fim do mês, pelo preço de 12 cruzeiros. Nesse tempo elas baixam a 10 cruzeiros com certeza, e o senhor ganha em quinze dias sem despender um real, uns milhares de cruzeiros que não fazem mal a ninguém. 

- Agora compreendo. Dez mil libras deixariam... 

- Vinte mil cruzeiros. 

- E se ao contrário subirem? 

- Perde a diferença. 

(continua...)

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