Por Lima Barreto (1921)
O municipal poliglotísmo infantil não ficou só nisso. A idéia do senhor Carlos Sampaio proliferou. Há dias comemorou-se o sexto aniversário da morte de Dante ; e, conforme li nos jornais da ocasião, os meninos e meninas das escolas públicas iriam cantar, em italiano, um hino ao altíssimo poeta.
Vai ou não vai em marcha, a idéia sampaiana?
A petizada dos colégios municipais, nesse andar, acaba falando ou cantando todas as línguas do Globo; e é de esperar que quando vier aqui o imperador dos maoris , ela saiba também entoar o lindo hino, da terra de tais antropófagos, o Pihé, que diz assim:
Papa ra te wati tidi
I dounga nei..
Um tão estupendo melhoramento municipal, pelo que lhe somos eternamente gratos, devemos a iniciativa do senhor Carlos Sampaio. Que homem viajado! Careta, Rio, 1-10-1921.
A LÓGICA DO MALUCO
Estes malucos têm cada idéia, santo Deus! Num dia destes, no Hospital Nacional de Alienados, aconteceu uma que é mesmo de se tirar o chapéu. Contou-me o caso, o meu amigo doutor Gotuzzo, que me consentiu em traze-lo a público, sem o nome do doente – o que farei sem nenhuma discrepância.
Havia na seção que esse ilustre médico dirige, um doente que não era comum. Não o era, não pela estranheza de sua moléstia, uma simples mania, sem aspectos notáveis; mas, pela sua educação e relativa instrução. Com bons princípios, era um rapaz lido e assaz culto. Fazia parte até da Academia de Letras da Vitória, Estado do Espírito Santo, onde residia – como membro extraordinário, em vista ou à vista de vaga, isto é, membro externo, ou de fora, que espera a primeira vaga para entrar. É uma espécie de acadêmico muito original que aquela academia criou e que, embora se preste à troça, lembre coisas de bebês, de cueiros, do Manequinho da Avenida, e outras muito pouco elegantes, oferece, entretanto, efeitos práticos notáveis. Atenua a cabala nas eleições e evita as sem-vergonhices e baixezas de certos candidatos. Lá, ao menos, quando há vaga, já se sabe quem vai preenchê-la. Não é preciso mandar organizar um livro, as pressas...
A denominação, na verdade, não é lá muito parlamentar; a academia capixaba, porém, a perfilhou, depois de proposta pela boca de um dos mais insignes beletristas goianos que nela têm assento.
O doente do doutor Gotuzzo, como já disse, era membro de fora da academia capixaba; mas, subitamente, com a leitura dos Comentários à Constituição, do doutor Carlos Maximiliano , enlouqueceu e foi para o hospital da Praia das Saudades.
Entregue aos cuidados do doutor Gotuzzo, melhorou um pouco; mas, tiveram a imprudência de lhe dar de novo, os tais Comentários e a mania voltou-lhe. Como ele gostasse do assunto, o doutor Gotuzzo mandou retirar do poder dele a profunda obra do doutor Maximiliano e deu-lhe a do senhor João Barbalho. Melhorou a olhos vistos. Há dias, porém, teve um pequeno acesso; mas, brando e passageiro. Tinha pedido ser levado à presença do alienista, pois queria falar-lhe certa coisa particular. O chefe da enfermaria permitiu e ele lá foi ter, na hora própria.
O doutor Gotuzzo acolheu-o com toda a gentileza e bondade, como lhe é trivial:
– Então, o que há, doutor?
O doente era como todo o brasileiro, bacharel em direito ou em ciências veterinárias; mas pouca importância dava à carta. Gostava de ser tratado de capitão – coisa que não era nem da defunta guarda nacional, sepultada, como tantas outras coisas, apesar da Constituição. Apareceu calmo e sentou-se ao lado do alienista, a um aceno deste. Interrogado, respondeu:
– Preciso que o doutor consinta que eu vá falar ao diretor.
– Para que? Para que você quer falar ao doutor Juliano?
– É muito simples: quero arranjar um emprego. Dou-me muito com o doutor
Marcílio de Lacerda, senador, que foi até quem me fez membro de fora da Academia da Vitória; e ele, naturalmente, há de se interessar por mim.
– Escreva ao doutor Marcílio que ele virá até aqui.
– Não me serve. Quero ir até lá; é muito melhor. Para isso, preciso licença do doutor Juliano.
– Mas, meu caro, não adianta nada o passo que você vai dar.
– Como?
– Você é doente, sua família já obteve a interdição de você – como é que você pode exercer um cargo público?
– Posso, pois não. Está na Constituição: “os cargos públicos civis, ou militares, são acessíveis a todos os brasileiros”. Eu não sou brasileiro? Logo...
– Mas, você...
– Eu sei; mas as mulheres não estão sendo nomeadas? Olhe doutor: mulher, menor, louco ou interdito, em direito têm grandes semelhanças.
Tanto insistiu que obteve o consentimento para ir falar ao eminente psiquiatra. O doutor Juliano Moreira recebeu-o com a sua inesgotável bondade que, mais do que o seu real talento, é a dominante na sua individualidade. Ouviu o doente com calma, interrogou-o com doçura e respondeu ao pedido dele:
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.